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quarta-feira

Quem é culpado por Wellinton Menezes de Oliveira?



Querido companheiro e colega Juan Luiz Cruz Ribeiro

Olha, se há uma pessoa de quem tenho orgulho de ser amigo és tu, Juan. Sentamos juntos algumas vezes lá nas cadeiras vermelhas dos corredores da Faculdade Delta para trocar idéias e nos conhecermos. Há momentos que te sinto reservado e cuidadoso.

Porém, meu caro, no alto de teus 20 anos de idade me ofereces verdadeiras lições de vida. Disseste-me que trabalhas desde muito cedo em tua vida, que providencias por ti mesmo os recursos para viver e estudar, como milhões de jovens brasileiros. Contaste-me que passaste por dificuldades e que te viste muito próximo das drogas, mas sempre soubeste superar os motivos que poderiam te derrubar.  

Nosso grande e maior educador brasileiro Paulo Freire disse que todos numa instituição educacional são educadores, a começar pelo porteiro, passando pelos trabalhadores dos diversos setores até a chegada na sala de aula com os professores e alunos. Não tenho dúvidas de que és um dos educadores na nossa Faculdade Delta. És um dos melhores. Interessante que nunca te vejo sozinho: sempre és cercado de alunos, de outros trabalhadores e de professores. Imagino o quanto deves aprender e ensinar, além de tua enorme simpatia e carisma envolventes. Tua competência na tua atividade de nos assessorar com equipamentos em sala de aula é indiscutível. Em face de dificuldades tecnológicas ages rápida  e competentemente, sempre pronto a nos ajudar e a encontrar  solução. Quanto a mim sou muito agradecido pelo bem que me fazes e a todos nós. 

Na verdade, Juan, tu integras a grande fileira da classe trabalhadora brasileira.  Nessa condição participas do que há de melhor, pena que os opressores e exploradores, embora vivam as nossas custas, dificultem tanto nossa vida, que poderia ser muito mais gostosa. Geram desemprego, esmagam direitos, roubam-nos o lucro do que produzimos. Temos que fazer força para nos mantermos íntegros. Tu és íntegro, meu irmão. Sei que boa parte dos trabalhadores se aliena e contribui inconseqüentemente com a exploração, assimilando a ideologia dominante, sem se importar com as desgraças de seus irmãos. É preciso muita vigilância para não cairmos ao colo e no encanto dos exploradores e suas “porcarias” de mercado. Muitos se alienam tanto que alegam não gostar de sindicato, de política, de movimentos sociais e que tais, como que gostando de ser explorados por essa burguesia brasileira, historicamente uma das mais atrasadas e cruéis do mundo. Muitos traem seus companheiros com boatos e fofocas na disputa por espaços, mesmo passando por cima da honra e da dignidade de seus pares. É o que Hegel já denunciava ao dizer que o escravo internaliza o senhor ao perseguir outros escravos ou que o oprimido introjeta o opressor, como dizia nosso Paulo Freire. Há que se ter muita clareza para sermos honrados e eticamente nobres na convivência com os trabalhadores, querido Juan. Pessoalmente tenho horror de falar mal de quem trabalha. É triste e feio para quem disputa safadamente espaço derrubando os outros. Os  puxa-sacos são pobres de espírito e de atitudes justas. Os que assim agem são desprezíveis, fracos e indignos de confiança. Admiro-te porque te percebo amigo e parceiro de todos nós. Não te vejo como um funcionário, mas como um companheiro e como um amigo. Sinto-me honrado por contar contigo como meu amigo. Conta comigo como teu amigo e companheiro de trabalho. Antevejo grandes vitórias e conquistas que farás. Creio que aprendes muito a conhecer a natureza humana e como lidar com suas afirmações e contradições.

Bueno Juan, não desejo que penses que te comparo com Wellinton Menezes de Oliveira, aquele jovem de 23 anos que assassinou 12 crianças no Realengo, Rio de Janeiro. Vocês são diferentes por uma razão nem tanto pela idade, mas pelo modo como se colocam ante a vida. Tu és autônomo, isto é, responsável por ti mesmo, saudável, integrante da sociedade, trabalhador que atende aos desafios de tuas atividades e lidas muito bem com as pessoas quando pressionado ou quando surgem erros ou dificuldades práticas. Historicamente o ser humano é indivíduo e social, tomando conta de si mesmo e, ao mesmo tempo, dos outros. Somos seres partícipes nas vidas uns dos outros. Somos responsáveis uns pelos outros. Aí a diferença entre ti e o Wellinton se escancara ainda mais.

O Wellinton é visto como terrorista, como criminoso, como louco, esquizofrênico, psicótico, psicopata e não sei mais como o que. Noutras palavras, não era autônomo como ser humano e sujeito de seus pensamentos e ações, não podia tomar conta de si nem de ninguém. Deu inúmeros sinais a todos os que o cercavam de suas impossibilidades e do que poderia fazer como o fez ao invadir a escola e metralhar 12 ou mais crianças ou todas as da escola, como planejara. Ninguém fez nada para impedi-lo. Logo há quem pecasse por omissão. Portanto, alguém é responsável pelo que Wellinton fez. Alguém o usou como fantoche para a barbaridade que fez. Da mesma forma como essa imprensa lixo disputou audiência para suas TVs, rádios e leitores para seus jornais e revistas os responsáveis pelo Wellinton promovem o esquecimento. Impressionante: depois de tudo acontecer surgem câmeras no portão da escola, policiamento ostensivo, promoção de policial que atirou em Wellinton, crachás para os visitantes, alarmes etc. Depois da casa arrombada aparecem as trancas.

Adivinha quem são os responsáveis, Juan. Basta examinarmos a pessoa do Wellinton e a fragilidade das crianças, dos professores e trabalhadores da escola. O Wellinton era doente. Ora, quem quebrou o Estado e o roubou da sociedade para entregá-lo ao imperialismo por essa elite impatriótica e alienada é responsável pelo fenômeno Wellinton. Ditadura, Collor, FHC, o governador e prefeito do Rio são responsáveis pelo que houve. Ninguém tomou providências para atender uma pessoa que se tornou risco para ela mesma e para a sociedade. Os mesmos que tomaram iniciativa de proteger as crianças e a escola depois da tragédia são responsáveis pelo que houve. Se fizeram depois é porque poderiam fazer antes. Essa desproteção a que todos somos jogados tem responsáveis. Os responsáveis pelas barbaridades que nos ocorrem são os gestores das coisas do povo, do Estado. Não adianta culpar os infelizes que venderam os revólveres a Wellinton. Não. Os culpados são os que dilaceraram o Estado. Esses são os bandidos, esses são os atiradores na verdade. Os chamados parlamentares da bancada da bala no Congresso Nacional também estão por trás de Wellinton.

Ora, Juan, doentes mentais sempre houve na história da humanidade. A sociedade e o Estado são responsáveis por eles e também por nossa segurança. Dou-te mais um exemplo: a Faculdade Padrão aqui em Aparecida de Goiânia é, quase todas as noites, assaltada por marginais e psicopatas. Todas as noites aparecem alunos e professores ameaçados com facas e revólveres, com carros e pertences roubados. Noutra noite um aluno foi assaltado em seu carro e ao invés de brecá-lo o acelerou caindo num mato, quase provocando enorme tragédia. E ninguém faz nada. Talvez farão quando acontecer alguma matança de alunos e proferrores, já tarde demais. Os responsáveis são o governador neoliberal e vendilhão Marconi Perillo e o prefeito Maguito de Aparecida. Qualquer coisa que acontecer lá será de responsabilidade deles. É evidente que os movimentos sociais têm que se mobilizar e pressionar os poderes públicos a responder os direitos do povo. Aliás, a alienação que impede a luta pelos direitos do povo prejudica muito ao próprio povo porque reforça a irresponsabilidade de quem está por trás dos Wellintons. É bom lembrar que foram as mobilizações populares que derrubaram a ditadura sanguinária e varreram o malfadado neoliberalismo, com o FHC à frente. 

Então, Juan, meu amigo, tua sorte é que és inteligente e autônomo para enfrentares a vida. Azarados são os que precisam de ajuda e de apoio. Correm riscos de agir sob os impulsos de suas energias descontroladas sem que ninguém os ajude e nos impeça de tantos sofrimentos,  como aconteceu às famílias do Realengo. Precisamos ampliar a luta para aumentar a capacidade do Estado para atender aos nossos direitos. Essa luta é incessante, creias-me. Somente os alienados e mal intecionados não percebem.

Obrigado por tua amizade e apoio aí na Faculdade Delta, meu amigo Juan. Abraços e até sempre. A luta continua. Amém!













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