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quinta-feira

O DONO DOS PORCOS

Orvandil Moreira Barbosa*

Existe liberdade?

Nesta terça-feira, dia 28, participei, no Centro Cultural “Cara Vídeo”, de mais uma apresentação de filmes e de posterior debate. Assistimos a três curtas metragens,todos interligados pelo fio condutor “vivência da classe operária”. Um apresentou a dura realidade de trabalhadoras numa fábrica de tecelagem. A prática do trabalho as fazia caladas, exploradas e tímidas. A diversão que lhes sobrava se reduzia a passeio à uma praia de mar, onde, no máximo, conseguiam sentar à areia e molhar os pés, sempre silenciosas e sem a fala libertadora. O segundo filme, muito conhecido, a “Ilha das Flores” de Jorge Furtado, apresentou a sofrida vida de moradores e trabalhadoras de uma ilha em Porto Alegre, que se misturavam aos porcos na disputa de tomates podres e de lixo, para a sua alimentação e pobre sobrevivência. O terceiro chocava com a vivência de trabalhadores da construção civil. A refeição deles, ao meio dia, trazida de casa numa marmita de alumínio quando saiam de madrugada para o trabalho, composta de carne, arroz e feijão, misturavam-se apertados no interior do recipiente, eram ingerida com desprazer . Os rostos dos trabalhadores no instante da refeição eram tristes e abatidos. O descanso no intervalo do almoço acontecia sobre lajes frias e duras, onde repousavam seus corpos explorados e cansados. A diversão de um deles se expressava em cantar músicas românticas em boates e emocionar platéias de trabalhadores/as sonhadores/as com amor e liberdade.

Muito sofrimento, marcado pela exploração e pela exaustão de corpos que entregavam juventude, energia, saúde e a própria vida em troca de tão pouco em termos de salários, comida, moradia e diversão.

Evidentemente que certos filmes obedecem a consciência sensível socialmente de seus autores, diretores e atores/as, mas não substituem a realidade, muito mais dura, cruel e injusta.

Saí de lá dolorido com a pergunta sobre se existe liberdade. Existe a liberdade apregoada pelos poetas? Existe a liberdade exaltada por certas correntes filosóficas? Existe a liberdade subjetiva e intra-pessoal profunda, como ensinam certas psicologias? Existe a liberdade no coração, como ensinam muitas pregações evangélicas?

O que é a liberdade para trabalhadores/as que entregam seus corpos aos que tomam sua energia, saúde e vida para construir o “bem-estar” da classe dominante? O que é liberdade para trabalhadores/as que não têm direito à diversão social justa e recreativa? O que é liberdade para trabalhadores que moram mal, que são transportados em condições inferiores ao gado para o matadouro? O que é a liberdade para multidões de trabalhadores/as que, em face da crise que os poderosos geraram agora, e sem perguntar nada a quem trabalha, desempregam milhões de trabalhadores/as, levando suas famílias ao mais cruel desespero? Enfim, o que é liberdade para quem produz tudo que é arrancado e transferido às mãos dos donos do lucro?

Existe liberdade? Não, não existe! No capitalismo a liberdade é falsa, é discurso mentiroso. A aludida democracia não passa de liberdade apenas para alguns, que vivem o luxo fruto do roubo das riquezas produzidas por quem trabalha. A superestrutura é o galinheiro que esconde as raposas que assaltam tudo dos verdadeiros donos da riqueza, os que trabalham. Todos os artifícios profissionais e formais se intrincam e se tornam complexos pelos mafiosos e sugadores do sangue arrancado em forma do suor explorado dos/as trabalhadores/as. Eu sempre disse nas minhas aulas de ciências políticas e de sociologia que, no capitalismo, os /as trabalhadores/as são livres para morar mal, são livres para adoecer sem sistema adequado de saúde, são livres para perder o emprego nas conjunturas de crise capitalista, são livres para andar em ônibus apertados, desconfortáveis e ruins, que as máfias do transporte coletivo lhes destinam, são livres para ser analfabetos, são livres para morrer jovens e estropiados de tanto trabalhar, são livres para viver aposentadorias doentes e mal remuneradas, são livres para ser maltratados pelos serviços de saúde. É isso o que é a democracia burguesa, que prega e faz esse tipo de liberdade.

A liberdade é potencial, isto sim, de quem luta por justiça social, por nova sociedade, que se organiza e busca se disciplinar na e para a luta que transforma a sociedade humana em corrente onde a liberdade troará como musicalidade sentida e vivenciada por todos/as. Sem dúvidas, a classe trabalhadora é detentora das sementes da liberdade social. Mas há muito que lutar na construção de sociedade realmente livre.

O título que dei a essa reflexão é tirado de uma frase do curta Ilha das Flores. No filme, o dono dos porcos era menos feliz do que os próprios porcos. No capitalismo os trabalhadores são tratados como porcos, cuja carne é consumida pelos capitalistas exploradores. Dia chegará para exterminar esse sistema diabólico e desconstruir a tragédia da falta de liberdade, tanto para os donos dos porcos quanto para os que são feitos porcos para seus falsos donos.

* Dom Orvandil Moreira Barbosa: bispo cabano, farrapo e quilombola. Professor universitário de Filosofia, Ciências Humanas, Aconselhante Relacional e Palestrante. Adicione-me no seu Orkut e participe dos debates da comunidade Joana D'Arc, também no Orkut.

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