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quarta-feira

Morreu meu amigo Zé Edi


Querida Gladis

Agradeço-te emocionada e profundamente por tudo o que fizeste por mim ai em Porto Alegre. 

Na verdade, minha grande e maior amiga, és tão especial que te tornas indefinível e indecifrável. Conseguiste o milagre de me ligar ao meu passado tão querido e rico. Lá estavam meus amigos Prof. Gaspar Lucas, Profª Laira Lucas e a Arlinda. O Gaspar, o GG, é muito especial para mim. Religaste-me a eles. Com eles comemos o churrasco que somente os gaúchos sabem fazer. Em torno dos espetos recordamos nossa juventude, revimos nossas fotos e nossa história. Surpreendi-me com a história de lutas do GG para defender nossa classe de professores. Senti orgulho do GG por ser um lutador como professor. Quando vejo muitos professores alienados, navegando num mar de falta de ética com sua condição de classe, como disse Paulo Freire, foi um refrigério saber que o GG lutou por nossa classe. Orgulhei-me em saber que tu foste bancária e que lutaste pela classe dos bancários, também.

Agradeço-te Gládis por me levares para ver o Zé Edi, meu amigo lá do Instituto União de Uruguaiana. Vacilei por um bom momento quanto se deveria publicar esse depoimento aqui, nesse blog que trata de política e de coisas da vida, nas perspectivas de denúncias contra as injustiças e de uma nova sociedade, ou no outro onde trato de questões de fé. Concluí que devo relatar esse fato aqui mesmo. Pois trata-se da vida e das experiências com um trabalhador. 

Pois é, levaste-me ao Hospital da Santa Casa de Porto Alegre, para visitar o Zé Edi que, sabendo que iria aí em Porto Alegre, queria me ver. Vivenciei, Gládis, um misto de sensações. De um lado me impressionei com a qualidade da Santa Casa. A Santa Casa é uma grande conquista do trabalho e da dedicação do insuspeito Cardeal Vicente Scherer. Este depois de se aposentar dedicou-se a recuperar a degradada e falida Santa Casa, colocando-a na condição de um dos melhores hospitais da América Latina, preservando atendimento dígno para os pobres. Aguardamos numa boa sala de espera o momento de entrar no CTI , até que uma médica gentil e competentemente, apesar de um português lamentável,  nos explicou o estado de saúde do Zé Edi.  Somente uma pessoa poderia entrar para vê-lo. Como o desejo dele em me ver era muito grande fui o escolhido. Deparei-me com meu amigo praticamente integrando um mundo de fios, de máquinas e de artifícios eletrônicos com agulhas e tubos  a penetrar-lhe o corpo. Ao entrar no quarto deparei-me com a mão direita do Zé a me saudar com alegria, transcendendo o quadro de sofrimento em que se encontrava. Com a mesma mão me alcançou com carinho e alegria, num afetuoso cumprimento. Deparei-me com meu amigo lá do União, que trabalhava nos serviços gerais e que estudara fazendo o Curso de Contabilidade, agora em estado terminal.  Mesmo assim recordou de nossos tempos. Falou de fé, de amor e da vida. Para terminar pediu-me para orar com ele. Insistiu que eu colocasse minha mão esquerda sobre seu cérebro e a direita sobre seu peito. Meu Deus, quanta emoção. Meu coração conectou-se com Deus, minha consciência me levou por entre a história da classe trabalhadora e suas lutas, marcadas de derrotas e vitórias contra a classe dominante. Minha alma derramou-se em face de um homem que lutava contra a morte, cheio de esperança pessoal. Durante a oração meu amigo Zé Edi dizia amém entusiasmadamente. 

Naquele embate, Gládis, percebi um homem frente à morte, recusando-se a morrer. Vi um homem pleno de vontade de viver e, apesar de seus 70 anos, esperançoso de encontrar um grande amor. Ali encontrei um homem que se recusava à derrota ao câncer que dominava seu fígado e seu pâncreas. Ao lado do Zé me senti no lugar certo. Percebi-me ao lado de um trabalhador. Nesse lugar sinto que Deus luta enquanto seu povo luta. Ao lado do Zé senti muito mais em comunhão com Deus do que em cultos e missas frias, ainda que barulhentas ou litúrgicas, expressivos em aleluias, glórias a Deus etc. Não sinto Deus onde só se fala em dízimos, em ofertas, em ir para o céu ou em enriquecer pastores, padres, bispos e instituições. Lá, ao lado do Zé Edi, num hospital associado ao SUS, muito bem organizado, aliás, senti a luta de um homem para viver. Vi a luta de um homem trabalhador. Ao seu lado vi Jesus. 

Mas nessa terça-feira à tarde, Gládis, me ligaste para me contar que o Zé Edi morreu. Sim, meu amigo Zé Edi, que ajudou a me acolher como bolsista no Instituto União, morreu. Tombou mais um trabalhador. Caiu mais um que se solidarizou com esse lutador. Morreu meu amigo Zé Edi. Sinto-me de luto. Cada vez que tomba um trabalhador o mundo fica mais pobre.

Mas te agradeço, Gládis, por me levares ao Zé Edi. Encontramo-nos pela última vez sob o imperativo da morte, que nos separou para sempre. Obrigado. Abraços.

Saudades do Zé Edi.

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