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sábado

Não basta ser mulher para ser mulher, concordas?


Caríssima amiga Nair Campos

Cheguei à primeira noite em tua turma para o início do nosso semestre. Logo, de cara, brinquei com o amigo e teu colega Ricardo. Brincadeira que ele acolheu com alegria e disposição. Aliás, o Ricardo é uma pessoa admirável e gentil. Ele conquistou para sempre o meu respeito

Passados alguns dias, quando desafiada por uma colega, foste à frente e fizeste uma defesa apaixonada da nossa maltratada e prostituída língua portuguesa. Despertaste minha admiração a partir daquele gesto. Admiro quem respeita nossa língua. Ao longo do semestre te mostraste fortemente presente em todas as aulas, percebi-o ainda mais agora que encerrei os diários. Porém, foste além da presença formal em sala de aula: demonstraste interesse na construção do conhecimento e da consciência dos problemas sociais. Nos debates e estudos de casos assim o demonstraste.

Todavia, não é só por isso que te trago a este blog. Convido-te a participares com teu nome aqui em razão de nossas conversas antes de as aulas se iniciarem a cada semana. Considero, amiga Nair, as conversas com os poucos alunos que chegam no horário, ou até antes, as mais preciosas. Ali percebo mais a vida e a caminhada de cada um.  Pois é, semanalmente te escutei e a outros sobre os problemas que vivem as mulheres de tua faixa etária. 

Falei-te que escreveria sobre isso e pedi a tua autorização para focar aspectos de nossas conversas. Algumas vezes me disseste que as mulheres vivem assustadas hoje com o vazio masculino e inseguras com o salto a dar após um casamento desfeito por divórcio ou por viuvês, como no teu caso. Realmente converso há anos e convivo em sala de aula e nos movimentos sociais com inúmeras mulheres acima dos 35-40 anos.  Percebo suas angústias, como percebo também soluções que algumas encontram para esse problema. Deparo-me com angústias, a meu juízo, mal alimentadas e, por isso, sustentadas sem razão de ser, por parte de muitas mulheres maravilhosas. Algumas abrem mãos da luta e da vida para abrir as asas sobre os filhos e deixam de voar. Seu protecionismo chega a abafá-los, segundo elas mesmas descobrem mais tarde. Mas o que mais as espezinha é a amarração aos ex-maridos e companheiros. Algumas, a pretexto dos filhos, até permitem que eles invadam suas vidas e se mantenham ativos e manipuladores de seus destinos. Algumas mantêm os sobrenomes dos “ex” como seus, numa aparência de fragilidade de sua personalidade e “mulheiridade”. Recebem visitas deles em suas residências, mesas de refeições e até em suas camas, mesmo quando eles já se uniram a outras mulheres. Com isso impedem a aproximação de outros homens com quem poderiam construir nova e rica relação. Dificilmente um homem compactua com tal situação. Outras, após separações, voltam ao esquema conservador, autoritário e machista da família pregressa, constituída de mãe, pai e irmãos, que se julgam com o direito de opinar e até de manipulá-las, atazanando-as na infantilidade. Os familiares julgam-se no direito de autorizar ou não autotizar novo relacionamento, geralmente com base em preconceitos de idade, econômico, religioso, político e tal. Esse esquema funciona como trava que impede o crescimento libertador de mulheres inteligentes, profissionais, cultas e líderes. Sem consciência de seu enorme cabedal potencial mantêm-se amarradas e em processo de envelhecimento mental precoce, apesar da freqüência a institutos de beleza, a academias etc. Outras, ou as mesmas, recolhem-se ao “aconchego” e ao “tribunal” das amigas, a quem relatam tudo, desde suas intimidades, frustrações, sofrimentos e profundas angústias. Via de regra, as amigas sofrem dos mesmos problemas. Nos encontros em bares, restaurantes, clubes etc – que se assemelham a “tribunais” de juízos sobre as mulheres, os homens e o mundo – são massacradas pela crueldade dos julgamentos a que se submetem. Mas recebem algum alívio até o próximo massacre de Nuremberg, mais pelo fato de falar, de rir, de se divertirem e de ouvir, do que o de solucionar seus problemas. Muitas, ainda, subemte-se ao surrado mecanismo de defesa da surrada e genérica afirmação "todos os homens são iguais", numa brutal ingujustiça do juízo fácil e superficial. Ontem à tarde assisti um debate de mulheres sobre a diversão que devem escolher para elas. A discussão deu-se no canal da TV “Boas Novas”, evangélico. A impressão que ficou foi a de mulheres pentecostais que desejam a modernidade, vestindo-se de acordo com o figurino da moda e tentando falar o máximo que podiam sobre seus desejos e prazeres. Mas, no fundo, amarram-se aos estereótipos de igrejas, extremamente machistas, no sentido de tudo fazerem para a sedução do macho, conservadores na perspectiva do mercado burguês e alienados, sem nenhuma abordagem de questões sociais de fundo, dos problemas que agudizam o mal-estar de todos, inclusive das mulheres.  Noutra madrugada assisti no mesmo canal a debates entre psicólogas, pastoras e outras mulheres sobre a questão da sexualidade feminina. Parece que ali há outra produção, mais avançada e “antenada” com as questões atuais da sexualidade das mulheres, mais liberta dos ranços preconceituosos e redutivos da maioria das igrejas, evangélicas e católicas. Porém, o pano de fundo permanece o mesmo: não tocam na questão social mais progressista, mantendo-se presas à leitura burguesa da fé e da religiosidade. As mulheres, mesmo com alguma perspectiva, ainda se mantêm amarradas e empobrecidas na sua condição. Outras mulheres tornam-se reféns de filhos e filhas autoritários/as, egoístas e machistas, sem romperem com a condição de escravas de casamentos e famílias falidas e alienadas. Por mais que reclamem e chorem para as amigas e namorados transitórios, padecem do medo e da insegurança de gritar o grito de libertação. Quando morrem até recebem algumas lágrimas de reconhecimento por suas dedicações, mas logo são esquecidas para serem lembradas por ocasiões de seus aniversários de nascimento, de morte e nos dias de finados. Claro que elas merecem mais do que isso, mas não se dão conta dos seus valores. 

Há mulheres profissional e intelectualmente muito capazes, aliás, melhor, a maioria o é e supera os homens que pararam na vida. Mas isso ainda não é tudo. Vê, Nair, o caso de Chistine Lagarde, conduzida ao cargo de diretora geral do Fundo Monetário Internacional. Ela é advogada e ex-ministra de finanças francesa. Quer dizer, é uma mulher linda, muito bonita mesmo, cabelos lindamente brancos, sem dúvidas, mas atrasadamente conservadora. Tanto que era chefe do cofre do governo direitista e conservador atual da França. Assume o cargo dessa instituição oligárquica e imperialista responsável pela desgraça e pelo inferno a que conduziu nossos povos na América Latina recentemente. Coloca-se à frente do FMI  para massacrar e sangrar o povo grego, favorecendo os bastardos e exploradores dos poderosos bancos internacionais. O que adianta ser mulher linda, gostosa e culta se serve ao pior das desumanizações desembocadas no escravagismo e no machismo?   Conheço muitas mulheres que atuam nesse vale dos mortais aqui, que são narizes empinados, arrogantes, conservadoras e burras, embora se achem o máximo por serem bonitas ou casadas com homens bonitos ou ricos. Elas me dão a impressão de que não adianta ser mulher, há que ser mais do que são para atingir essa condição maravilhosa, do contrário não passam de machistas em corpos femininos. 

Mas afinal, Nair, onde encontrar a solução? Claro, minha amiga, darei a resposta a partir do meu olhar, para ser honesto, como alude Leonardo Boff: “O ponto de vista depende da vista do ponto”. Evidentemente tenho um ponto a partir do qual vejo as mulheres e o mundo. O meu ponto de vista é desde uma fé que arranca e marcha ao lado do povo, dos oprimidos, dos que lutam por sociedade mais justa, dos que avançam nessa caminhada e celebram suas vitórias. Nessa via a família é um órgão da vida social e não a vida social toda, o namoro e o casamento são parcerias na luta pela redenção da humanidade e não prisão e túmulo do amor e da paixão. Nessa aliança não prepondera o egoísmo dos que querem o/a parceiro/a submisso a caprichos estreitos de uma visão familiar burguesa de consumo. Outro dia um amigo meu se queixou que sua namorada o dispensou porque ele se envolve “demais” na luta pelas transformações sociais. Ele sofreu com a ruptura, por amá-la, mas sua consciência agradeceu por libertar-se de uma alienada que não enxerga nada além de seu nariz e umbigo pequenos burgueses.  

Voltando ao núcleo de nossa tese, Nair, vejo no caminho da luta incessante por sociedade nova e mais justa, mulheres maravilhosas prenhes de humanidade e generosidade pela vida e pelo amor. Elas não têm tempo para sentimentos menores e pobres de coragem. São lutadoras e ricas em carismas de exemplo, de diálogo, de honestidade no levantamento de dúvidas angustiosas e sempre prontas a fazer autocríticas e mudarem, quando a vida lhes exige. Os pruridos moralistas dessas mulheres são quase nulos. Elas não têm medo de expor o que sentem e nem se submetem a caprichos arcaicos e conservadores de amigas e familiares. Pelo contrário,  são exemplos para suas famílias e amigas/as. Conheço inúmeras dessas mulheres em todos os campos da luta. Elas não têm visibilidade nessa mídia alienada e alienante. Mas trabalham intensamente na construção do edifício social que dê espaço a todas as pessoas de boa vontade. Elas estão nas pastorais católicas e evangélicas, muitas vezes odiadas por bispos e pastores, nas batalhas sindicais e associações femininas, nos partidos do povo etc. Outro dia tive a honra de conviver num final de semana com uma mulher poderosa dessas. Ela é casada e militante da educação popular em assentamentos de agricultores em Goiás. Ela foi minha aluna. Quando se despediu de mim ao término das aulas no sábado foi direto ao hospital, onde passou a noite com problemas cardíacos. Pela manhã, no domingo, exigiu ser liberada para ao encontro acadêmico, alegando que não poderia perder a aula com esse gaúcho consciente dos problemas sociais e das mulheres, segundo generosamente disse a todos nós. Ela é militante do MST e membro da Diocese de Goiás. Que bom ser amigo de uma mulher assim, que se liberta dos "choromingos" porque se joga no leito amazônico da vida, por onde escorre o mais gostoso e rico da feminilidade. 

Claro, querida Nair, as mulheres da luta social também têm problemas sexuais, familiares, sociais etc. A diferença é a sua postura de vida. A luta as ensina a arte da sociabilidade rica em diálogo, em correção dos erros, da libertação da mediocridade conservadora que recheia as famílias, os homens medíocres, as amizades e as religiões. Portanto, parece-me que aí está a solução e não na alienação, por mais que se fale em profissionalismo, em competência, em salários e tal.

Bueno, minha amiga, desejo que continues a busca que fazes, que te apaixones pela vida e que te entregues à trilha do caminho correto. Há lugar para ti e para todas nessa maravilhosa e trepidante senda da luta. Sabes, não consigo ver Maria fora dessa história nem  Madalena, Miriam, Rute e outras tantas mulheres heroínas da bíblia . O bispo Almir do Santos, da Igreja Metodista, progressista e inteligente, uma vez afirmou: “Maria, mãe de Jesus, jamais seria aceita hoje numa sociedade metodista de senhoras”. Concordo. Nem em nenhuma outra sociedade conservadora de mulheres. Imagina Maria sentada numa roda de mulheres amargas, queixando-se de seus maridos, sem nada fazer para mudar o mundo. Nunca! Mas Maria tem lugar na história da salvação, sinônimo de libertação de todas as opressões. E é isso o que importa.

Abraços, amiga Nair e a todas as mulheres, inclusive àquelas de quem apanharei através dos comentários que me escreverão, discordando de mim. Publicarei a todos, democraticamente, creiam-me.

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