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quarta-feira

Pastores ou marginais?





Amigo Rudney Torrezini

Há pouco mais de ano, tu e eu,  assentamo-nos num banco na Praça  Dante Alighieri em Caxias do Sul – RS. Abrimos nossos arquivos mentais e revimos nossas lembranças desde o seminário, onde por um ano fomos colegas de estudos, quando decidiste seguir o caminho do direito e dos negócios, mas sempre cultivando em tua vida valores profundos. Comoveste-me ao me contares o sofrimento que vivias com a perda de tua esposa, morta tão prematuramente, flagrada por um câncer fulminante. Sofro com o  sofrimento das pessoas que amo. Viajei daí com muito pesar, mas confortado, por outro lado, por te encontrar, sempre movido pela aquela alegria que italianamente sempre te caracterizou. Sempre que nos encontramos promovemos verdadeira gritaria aos nos abraçarmos, que assusta os circunstantes. Foi bom te ver, meu irmão. Gostaria de saber notícias atualizadas tuas.

Convido-te a pensarmos sobre o evento que envolveu os pastores, aqueles retratados pelo Médico Lucas, no seu Evangelho, capítulo 2, 8-20. Assisti algumas pregações que ornamentaram injusta e romanticamente esse texto, sem entrar no seu núcleo. Os pastores eram um setor profundamente marginalizado nas campinas da Palestina. Encarregavam-se, para  sua sobrevivência,  dos cuidados das ovelhas dos proprietários de gado, de terras e de escravos. Sua condição social e econômica os mantinha sob o olhar discriminador das cidades, cuja elite política e religiosa se recusava a aceitá-los  em seu convívio social. Os pastores não se submetiam às mesmas leis nem freqüentavam os templos e locais de seus exploradores. Eram mal vistos e mal tratados.

Pois bem,  os anjos relatados por Lucas  cantam o nascimento de Jesus primeiramente para os marginalizados pastores. Ressalte-se que a figura de anjo era parte do mundo político. Tratava-se do mensageiro humano que levava a uma pequena multidão alguma comunicação de parte do governante da classe dominante da época. Os anjos de Lucas não são enviados por  César ou pelo Herodes assassino,  mas despontam nas colinas para anunciar salvação,  libertação e dignidade à classe dominada,  excluída, pobre e abandonada,  procedentes do Deus Libertador e não dos exploradores e marginalizadores. O que eles anunciam não acontece nos palácios da classe dominante, mas numa estrebaria na periferia do mundo, em Belém.  

Ato contínuo, os pastores se reuniram numa espécie de assembléia, debateram o que fazer e coletivamente decidiram viajar até Belém para contemplar e se engajar no processo libertador. A partir de Belém eles não retornaram aos campos para cuidar de ovelhas, mas integraram o projeto que os impactou no encontro com o messias, com Maria e todo o elenco que desencadeava o drama da salvação,  enfrentando todas as conseqüências e perseguições testemunhadas pelos evangelhos. Romperam com a marginalização que os humilhava sob a dominação. A participação sempre é libertadora e promotora da salvação, também.

Percebo,  meu amigo Rudney, que muito disso acontece hoje aqui no Brasil. Vi inúmeras matérias televisivas mostrando o setor social que vivia na pobreza e à margem da sociedade, amargando o desemprego, a pobreza e  a miséria. A elite embrutecida não estava nem aí para o sofrimento de nossos irmãos brasileiros. Pelo contrário, ainda acusam as políticas públicas de promoção humana de assistencialistas e populistas. Porém,  as pessoas que participam dessa emancipação demonstravam muita alegria por comprar, como fruto de empregos e riquezas distribuídas com a política atual desenvolvida pelo governo federal. Conversei com muitos que vivenciaram alegrias nesse natal como nunca experimentaram antes.

"Entre 2002 até 2010 mais de 75 milhões de brasileiros foram incluídos na classe C e a desigualdade de renda pelo índice Gini caiu de 0,58% para 0,54% em 2009, com dados na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Em consequência, houve redução da pobreza em 45%. Enquanto, o percentual de pobres em 2002 chegava a 26,7%, em 2009 caiu para 15,3% da população.

A criação de empregos também foi considerada recorde pelo governo. Em 2002, foram gerados 961 mil postos de trabalho. Para este ano, a estimativa do Ministério da Fazenda é de 2,2 milhões. Em novembro, a taxa de desemprego, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atingiu 5,7%, o menor nível da história" (Agência Brasil).

 Pergunto-me se essa alegria não se assemelha em muito com a que os pastores vivenciaram na Palestina há mais de dois mil anos. As alegrias de nossos irmãos brasileiros que ascenderam econômica e socialmente é real em forma de habitação,  energia elétrica,  estudos para seus filhos, emprego, distribuição de renda, mais qualidade de vida etc.

Uma família de negros de meu relacionamento comemorou o natal nesse ano de uma forma surpreendente, como nunca imaginei que pudesse acontecer. 52 pessoas, entre pais, mães, filhos/as, noras, genros, netos/as, namorados, reuniram-se numa chácara para celebrar o natal. Do grupo participaram professores, um teólogo leigo, catequistas, líderes comunitários e paroquiais, católicos e evangélicos. Compartilharam presentes, jantares, almoços etc. Mas o alto do encontro foi quando o teólogo,  demonstrando compromisso com a fé e com a vida, levantou, em lágrimas,  preocupações com alguns membros da família que se arrastam pelas bebidas alcoólicas,  no limite da destruição e da morte. O momento foi dramático. Várias pessoas falaram no sentido de provocar nos consumidores de bebidas alguma posição no sentido de sua libertação. E realmente ocorreu o posicionamento desejado. Alguns deles se levantaram e confessaram as dores que viviam, o quanto sentiam-se violentos e revoltados, estourando sua raiva contra esposas e filhos, quando alcoolizados e prometeram interromper o processo naquele momento, agradecidos pela profunda solidariedade libertadora que a família lhes demonstrava.  Em momento algum houve agressão, desrespeito, agressão verbal, moralismo, sermão, humilhação, mas trataram com rara honestidade do problema que ameaça a família. Quando saíram da chácara o fizeram comprometidos com o que prometeram: de um lado os que prometeram ajudar assim se empenham e os que prometeram libertar-se da dependência assim se comprometem contando com a ajuda dos familiares. 

Tanto o novo momento em que milhões de brasileiros viveram nesse natal, reunindo-se em famílias, com alegria e com festas quanto o grupo de negros que buscou fortalecer seus laços culturais quilombolas e familiares,  sem hipocrisia,  abrindo suas feridas para construir alegrias mais honestas e permanentes,  repetiram o levante dos pastores da Palestina quando decidiram ir até Belém para ver o que o Senhor lhes dera a conhecer. E o que lhes dera a conhecer é libertação, salvação e dignidade. Mas é preciso levantar-se e movimentar-se em direção ao que salva e liberta. Como é necessário manter-se e crescer no processo libertador, lutando pela libertação dos outros. Não se deve voltar para o mesmo lugar de escravidão, enquanto símbolo de estagnação e de alienação.

Esse é projeto de permanente desafio entre nós. Precisamos enfrentá-lo com dignidade e fé. Nosso processo libertador no Brasil está apenas no começo e na retomada. 

“Glória a Deus nas maiores alturas e paz na terra entre os homens de boa vontade”.

Abraços, meu amigo Rudney e até o nosso próximo e barulhento encontro.


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