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quinta-feira

Abaixo a lei da anistia, a reconciliação hipócrita dos torturadores

 

Prezado Tenente Manoel


Sou eternamente agradecido a ti pelas vezes em que cuidadosa e secretamente me convidaste para conversar sobre as ameaças que a ditadura, através dos generais e dos torturadores que ocupavam espuriamente os QGS de Cruz Alta, de Uruguaiana e de Santa Maria, faziam contra mim e a minha família. Alertaste-me que os lacaios da ditadura me seguiam desde o seminário, onde, aliás, fui preso pela primeira vez e torturado violentamente, depois de ser preso numa escola enquanto dava aulas de ensino religioso. Avisaste-me dos detalhes das espionagens e me ensinaste a perceber de que modo eu era espionado. Os safados mandavam militares e policiais dependurar-se em árvores à frente da casa pastoral, com câmeras e microfones em punho para recolher material contra mim e identificar as pessoas que nos freqüentavam. Introduziam espiões nas celebrações para gravar minhas falas com a intenção de me acusar como subversivo. Quando viajava para o interior para visitas às comunidades das colônias me deparava com carros e gipes estranhos e com pessoas desconhecidas presentes nas comunidades, tudo com o objetivo de intimidar e de semear desconfiança nas comunidades. Aprendi a evitar certos gestos e até a tapar a boca para evitar a leitura labial por parte dos espiões.


Obrigado, meu irmão Manoel. A primeira vez que disseste que desejavas falar comigo me cobri de todos os cuidados temendo que servisses a ditadura. Por teu lado também te cuidaste me pedindo que guardasse sigilo, que se eu tomasse qualquer atitude no sentido de denunciar-te serias prejudicado, mas eu seria preso e provavelmente eliminado e as ameaças chantagiosas de seqüestro de meu filho, um nenezinho de poucos dias, seriam cumpridas. Poxa, com que emoção me lembro agradecido a ti e por tua dignidade. E tu nem pertencias à minha comunidade. Apenas eras um bom homem e um democrata nacionalista convicto. Outros líderes da comunidade colaboraram com a ditadura no sentido de me fazer pressão para que não apoiasse os agricultores chamados “afogados do Passo Real”, com suas terras inundadas por lagos e  pela ditadura, vivendo grandes frustrações e necessidades à beira das estradas. Os traidores a serviço da ditadura também se perturbavam com um grupo de teatro que se reunia e ensaiava no salão paroquial. O meu amigo, ator e teatrólogo Heitor Schimidt, de quem tive a honra de celebrar o casamento e com quem até hoje converso pelo MSN, era mal visto pelos medíocres puxa sacos da ditadura.  Fui levado algumas vezes ao QG de Cruz Alta para prestar “esclarecimentos” sobre o teatro Galáxia, como se chamava, taxado pelos patetas como altamente subversivo e também para “explicar” meu apoio aos agricultores do Passo Real. Ao viajar para as Ruínas de São Miguel, certa vez, para participar de um congresso de apoio aos indígenas, fomos em comboio com Dom Pedro Cassaldáliga, Dom Thomás Balduíno e com o Irmão Antonio Tccim, para não sermos presos. Mesmo assim o encontro, apesar da presença de imprensa nacional,  ecumênica e internacional, foi atacado e a energia, que nos permitia utilizar aparelhagem de som, foi cortada. Tu, querido Manoel, me comunicaste que a ditadura se incomodava muito por se sentir limitada quanto sua vontade de me liquidar por minhas fortes relações ecumênicas. Em Cruz Alta tinha destacada comunhão com o querido Dom Jacó, a quem sou muito agradecido. Sei que ele gostava de mim. Mas fui expulso da cidade graças ao dedodurismo de dois pastores evangélicos e de outros, amicíssimos dos generais serviçais da ditadura. Um daqueles pasrores me pediu perdão mais de vinte anos mais tarde, quando nos encontramos em Caxias do Sul. Em Santa Maria o setor linha dura da Aeronáutica e do Exército se sentia limitado a acabar comigo pela minha amizade com Dom Ivo e  envolvimento ecumênico. Mesmo assim me prenderam e condenaram a dois anos e meio, acusado de colocar em risco a lei de segurança nacional, elaborada e sustentada pela ditadura. Porém, apesar dos enormes constrangimentos que me impuseram, não conseguiram me submeter a grandes flagelos. Os bispos metodista, episcopal e católico romano e o pastor distrital da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, ao saberem que um famoso torturador, delegado da Polícia Federal enviado do Nordeste para Santa Maria para me torturar, reuniram-se e imputaram irrestrita solidariedade pública a mim e denunciaram a presença na cidade do bandido a serviço da tortura. Isso, sem dúvidas, foi mais uma alavanca a favor da derrubada da ditadura. Lembro da vergonha que o juiz militar vivenciou quando, após aprovada a lei da anistia,  me chamou para devolver-me parte da minha biblioteca que surrupiaram da casa pastoral onde morava, visando  provar minha alta “periculosidade subversiva”, como gostavam de nos acusar. Recordo do cinismo do delegado subserviente Máximo Cirano Fortes, quando fui a delegacia da Polícia Federal, ainda ocupada por ele,  após a anistia, reclamar a devolução equipamento de som que surrupiaram de mim ao me perseguirem nas reuniões com moradores das vilas em Santa Maria. Máximo fez piadinhas sobre meu envolvimento com o povo e lamentava que não fosse eliminado, dizendo que eu tinha muita sorte. 


Bueno, Manoel, lembro agradecido e emocionado de tudo isso para fazer referência que me sinto feliz pelo recuo da Presidenta Dilma em relação à revisão dessa anistia. Ela não vetará o fim do sigilo eterno. As pressões sociais e da ONU repercutem no Congresso Nacional no sentido de que a lei da anistia seja revisada e os torturadores levados à justiça para que prestem contas dos crimes que praticaram. O Brasil se livrará da acusação de ser o único País do Cone Sul a não julgar os torturadores. A Argentina, o Uruguai, o Chile etc levaram seus ditadores e torturadores à justiça e à prisão. Exigimos que os energúmenos que traíram o desenvolvimento brasileiro sejam julgados. Exigimos que os combatentes do Araguaia e das cidades, que tombaram na luta contra a ditadura e por sociedade mais justa, sejam encontrados e entregues às suas famílias.  Há que buscar o núcleo da justiça que dá vida à Declaração Universal dos Direitos Humanos, consignada pelo Brasil. 


E mais: pessoalmente tenho muito interesse que pastores, padres, religiosos/as e leigos “cristãos”  - católicos e evangélicos - que colaboraram com a ditadura,  sejam  levados a julgamento. Os que já morreram devem ser julgados postumamente. A Argentina julgou e condenou a mais de trinta anos um padre que usou o sigilo das confissões para entregar opositores da ditadura de lá. Certíssima. Esses ditos cristãos que se abastassem de mentiras e calúnias do imperialismo internacional, dizendo que os países socialistas destroem a liberdade e prendem os missionários e, em nome disso, perseguiram e ajudaram a torturar, a matar e a destruir, inclusive crianças inocentes, infringiram o Evangelho e atentaram contra a Pátria. Devem ser julgados e pagar pelos seus crimes. Esse é ato de cidadania e de democracia, ainda incompleto. Somente com justiça é que haverá verdadeira reconcilicação e cura nacionais e não com encobertamente dos criminosos.


Graças a Deus que contamos com militares e cristãos de teu quilate, querido Tenente Manoel. És, ao lado de tantos outros heróis, verdadeiro arauto da justiça e da democracia. 
 

Abraços agradecidos, meu irmão.

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