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terça-feira

Revisão da anistia e julgamento de católicos e evangélicos


Prezado Nilson Pinto Corrêa


MD Diretor Geral do Jornal Cidade de Uruguaiana


Morei nessa querida cidade de Uruguaiana em duas levas. Na primeira quando estudei no querido Colégio União, de onde saí para o seminário. Depois retornei para exercer o ministério pastoral e para lecionar no Elisa Ferrari Valls e no meu querido Instituto União. Durante esse tempo produzi e apresentei programas diários nas rádios Charrua, São Miguel e na TV Uruguaiana – RBS. Escrevi uma coluna semanal num jornal daí, também. Não me lembro do nome. Quando fui transferido senti muito. Gosto muito dessa cidade símbolo da amizade entre as nações e os povos, tanto que a ponte que liga o Brasil à Argentina se denomina “Ponte Internacional da Amizade”. A cultura gaúcha dessa parte do Brasil incentiva a amizade com outros povos e o carinho por eles. Isso vivenciei aí como em nenhum outro lugar do Brasil.


Sofri muitas dores de cabeça com a ditadura militar. Tirou inúmeras vezes meu programa de TV do ar. Censurou muitos dos meus comentários televisivos, radiofônicos e artigos de jornal. Houve momentos em que os militares exigiam que eu escrevesse meus comentários e os levasse ao QG para exame prévio, aprovação, reprovação e censura de partes do que eu escrevia. Até mesmo na igreja gravavam meus sermões e prendiam os boletins paroquiais. Infiltravam espiões nas reuniões da igreja, principalmente entre os jovens. De repente apareciam jovens militares nas reuniões da juventude, dizendo-se interessados em participar da igreja. Um deles passou a namorar uma jovem da igreja e depois casou com ela. Prestou “bons” serviços aos ditadores como traidor. Uma vez flagrei três espiões num velho automóvel à frente da igreja, à noite, no escuro, prontos para me dar um golpe. Surpreendi-os antes apresentando-me ao lhes perguntar se era por mim que procuravam. Sem titubear gritei alto e em bom som, denunciando sua malévola presença com intenções safadas de me prender. Surpresos e assustados com minha atitude deram partida no seu velho e sujo Aero Willis e saíram em disparada.


Bueno, Prezado Nilson, recebi exemplares de teu jornal, enviado pela querida Gládis Morales Machado, uma uruguaianense dos “quatro costados”, que mora em Porto Alegre. Gostei do jornal, tchê. É buenacho uma barbaridade. Nele li o editorial do dia 21 de junho. A matéria é uma produção do filósofo neoliberal Denis Lerrer Rosenfield, professor lá da Universidade Federal de Porto Alegre. Aliás, ele esteve nessa madrugada no Programa do Jô da TV Globo. Trata da questão referente ao sigilo dos documentos sobre a ditadura e a guerra do Paraguai, muito debatida hoje. 


Penso que aí há dois pontos a ser considerados. Um é o referente a ditadura e o outro é sobre a guerra com o Paraguai. 


Certamente o governo brasileiro tem seus estudos e reflexões políticas sobre a conveniência ou não de disponibilizar a documentação sobre os horrores na destruição daquela nação próspera e independente de que participou o Brasil, a serviço do imperialismo inglês. Porém, politicamente há que se ter muito cuidado em abrir abismos divisionistas entre nossos povos latinos americanos que buscam construir o sonho de Simon Bolívar, o de unir a América contra a exploração comum, há quase um século e meio.  Pode ser que o imperialismo americano tenha interesse em promover tensões fratricidas entre os povos do Sul da América, principalmente agora em que sua decadência o torna ainda mais desesperado. Talvez a prioridade agora é o de aprofundar o desenvolvimento e a justiça social entre nós, antes do que o de abrir documentos históricos prenhes em injustiças e barbáries praticadas por outro modelo político.


Outra coisa é promover a abertura de documentos dos crimes e criminosos da ditadura militar, cujo golpe contra a nação e o povo brasileiros se deram há poucos anos. Suas feridas não se fecharam. Muitos dos golpistas e torturadores ainda atuam para prejudicar a democracia e o desenvolvimento. A Nação precisa trazê-los à tona o quanto antes. Eles golpearam e estupraram a todos nós. Tomaram conta da justiça, da economia, do Estado, da cultura, da mídia, da religião, de tudo. Graças a eles ainda sofremos. Precisamos arrancá-los de suas tocas apodrecidas e de seus sepulcros caiados.  


É inconcebível que tomassem de assalto nossas forças armadas e polícias e as transformassem em antros de banditismo na prática de torturas e armadilhas contra os democratas e a democracia. Os argumentos usados pelos torturadores e ditadores de que lutaram para impedir que o Brasil caísse sob o controle do comunismo foram pífios e mentirosos. Mentirosos e hipócritas pelo seguinte: a)os progressistas da época pré 1964 não praticaram banditismo em forma de prisões e de torturas. Lutaram sim pela reforma agrária, pela nacionalização de empresas estrangeiras, pela educação, por eleições de pessoas comprometidas com o povo, por justiça social etc, mas não foram bandidos nem torturadores como os golpistas entreguistas; b)medo do comunismo internacional: está aí uma baita mentira: nunca houve comunismo em parte alguma do mundo, a não ser o comunismo primitivo, lá na pré-história da humanidade. O que havia eram revoluções socialistas na União Soviética, na China, em Cuba etc, mas não comunismo. No Brasil lutávamos pelo socialismo, mas de forma pacífica na construção de avanços. Mas nunca se pretendeu anexar o Brasil a quem quer que seja. Os golpistas torturadores e estupradores da democracia mentiam com a falácia de que lutavam para impedir que o Brasil caísse nas mãos da Rússia Na verdade o que eles fizeram foi entregar nosso País ao pior dos atrasos ao nos submeterem ao terror do imperialismo estadunidense. Graças a esse movimento político que fizeram prenderam, perseguiram, mataram e sumiram com milhares do brasileiros/as, que fazem falta hoje para nossa luta. Então não se pode permitir que os bandidos que usaram nossas forças armadas, destinadas a cuidar de nossa segurança nacional, saiam incólumes disso. Não dá para aceitar.


Pelo lado dos religiosos, católicos romanos e evangélicos, não é possível deixar por menos. Houve padres e freiras vindos dos Estados Unidos para criar aqui a malfadada “Marcha com Deus pela liberdade”. Eles buscaram dividir o País, jogando o povo contra suas lideranças. E o fizeram através de muitas mentiras e calúnias. Milhões de dólares foram despejados pelos Estados Unidos naquela diabólica campanha. Padres e bispos deduraram militantes e lideranças populares. Do mesmo modo pastores e empresários evangélicos. Na matéria publicada pela revista Isto É, há poucos dias, pastores se orgulham ainda de auxiliar nos crimes praticados pela ditadura. Documentação guardada pelo Conselho Mundial de Igrejas e por instituições americanas sadias nos dá conta de que, por exemplo, o  “...pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”.  O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.” O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.”


Conheci centenas desses safados frequentadores de igreja. Uma vez, numa noite de vigília, na passagem de ano, numa cerimônia eucarística, um desses torturadores, “falso cristão”,  veio a mim para comungar. Quando me reconheceu empalideceu, apanhou o vinho e o pão eucarísticos e não conseguiu ingeri-los, derramando o vinho pela boca, até cair em sua roupa. Retirou-se do templo cheio de ódio. Fui muito perseguido por eles. Alguns se arrependeram e vieram a mim pedir perdão. Perdoei e integrei alguns numa vida comunitária curativa e libertária, transformando-os em lutadores. Mas a maioria foi hipócrita, como esse pastor Pontuschka. Eles perseguiam a gente convictamente. Muitos leigos azucrinaram pastores e padres com chantagens,  denunciando-os para os torturadores. Eram agentes infiltrados em todas as instâncias das igrejas, com o objetivo de perseguir. Quando lutei pelos direitos de agricultores em Cruz Alta – RS, onde nasceu boa parte do Movimento dos Sem Terra, membros de minha igreja entregavam no QG e aos militares maçons material que eu produzia, pressionando os militares a me prender. Numa semana da Pátria o coral todo da igreja começou a cantar o hino nacional enquanto os coristas corriam em direção à porta principal do templo, deixando-me sozinho para que os militares presentes na cerimônia me prendessem. Tudo combinado previamente, falasse eu o que falasse. Durante todo o tempo da ditadura fui infernizado por “cristãos” de meia tigela a serviço da ditadura. Eles eram de direita por convicção. Quando meu filho nasceu tive que fugir para proteger sua integridade sob ameaça de seqüestros promovidos  por “militares”, inclusive da igreja.


Portanto, sei bem dos crimes dos torturadores. Vi, senti e ouvi o que fizeram. Cristãos a serviço da tortura é contradição inaceitável. Cristão ser de direita e neoliberal é negação do que Jesus ensinou. A justiça construída para julgar criminosos deve levar aos bancos dos réus padres, pastores e leigos ditos cristãos. O julgamento deles deve ser muito mais rigoroso do que o dos outros.  Defendo que a Comissão da Verdade seja aprovada no Congresso Nacional e que a sociedade a integre na apuração dos crimes praticados pelos torturadores ativos e passivos. 


Penso que a Anistia Ampla, Geral e Irrestrita foi o que conseguimos na virada nos anos 80. Como luta e etapa para os avanços contra a ditadura sanguinária foi válida. Mas é chegada a hora da Justiça ampla, geral e irrestrita. Permitir a impunidade dos torturadores e de dedos duros  é garantir que os opressores se fortaleçam à sombra e sonhem com novos golpes. Justiça e mais justiça, é necessário.  Não se pode aceitar que o que disse esse simulacro de pastor, o  Enéas Tognini, quando afirmou “que não me arrependo. Eles salvaram a Pátria do Comunismo”, a reafirmar sua índole nazista,  seja vencedora. Ele tem que enfrentar em juízo as consequencias dos crimes que ajudou a praticar.


Abraços aqui de Goiânia, jornalista Nilson, com saudades de Uruguaiana. Parabéns por teu jornal. Desejo-te muita força na luta por informações verdadeiras e justas.

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