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COMPREENDER O OUTRO


Por Orvandil Moreira Barbosa* - editor


Outro dia visitei dois jovens vizinhos aqui próximos de onde moro, em Curitiba. Nossa conversa correu rapidamente pelo mundo tecnológico. Mas me choquei quando responderam minha pergunta sobre o que faziam para sobreviver. Disseram que faziam negócios pela internet porque não gostam de gente, não gostam de falar com gente. Para eles as pessoas são muito chatas e só causam problemas.


Há tempo penso sobre isso. Vivemos num mundo que dificulta o entendimento, a compreensão justa do outro. O que pensa o outro? O que sente? O que fala? O que significam suas palavras? Que é para ele o sofrimento, o abandono, a tristeza, as mágoas, as decepções, os fracassos, as frustrações, as perdas, os pecados, a moral, a ética, enfim, o que se passa exatamente com o outro, com seu universo subjetivo e com o seu mundo?


Aprendi que quando se pede conselho a alguém o que se ouve são convicções, discursos, saberes e experiências ricas para quem aconselha, nem sempre apropriados aos aconselhados. É muito difícil e até impossível aconselhar.


A Antropologia tem um vocábulo interessante para definir o problema das intrusões, violências culturais e políticas causadas pelos colonialistas e suas ciências. Trata-se da alteridade. Define-se como a capacidade de compreender o outro em seu ser cultural diferente e original. A consciência do outro impede que se invada e se violente seu mundo. O pesquisador alterativo procura despir-se de seu universo ideológico dominante para entregar-se ao universo ideológico dominado ou pesquisado.

Mas nas relações inter-pessoais parece que falta a noção da alteridade, a compreensão justa de quem é o outro. Há a impressão de tentativa de imposição sobre o outro, quase em forma colonialista. Há tentativas de impor visão de família, de vida, de mundo, de valores, econômica etc sobre o outro. Às vezes tenho a impressão de ouvir as patas dos poderosos cavalos coloniais a invadir coração e mente do outro. Por exemplo: nos partidos as pessoas valem por seus valores mobilizadores ou econômicos. As pessoas em si não têm nenhum valor. Por isso, muitas direções se afastam das bases compostas por gente que sofre e viram partidos de gabinetes, de escritórios e de campanhas eleitorais. As pessoas do cotidiano não valem nada para os partidos. As pessoas são outros seres humanos, embora reais, mas são outros, geralmente incompreendidos. Já vi militante “bom” torcer o nariz quando pessoas do povo choram suas mágoas. Para as igrejas as pessoas valem se são s"alvas" e podem contribuir com os dízimos para o sustento das pesadas instituições. Do contrário não valem nada, mesmo em seus sofrimentos e terríveis dores físicas e morais. Nas famílias – noção complexa, dependendo de quem a define – os juízos pesados e distorcidos sobre o outro incrementam imensas tensões. Vi, outro dia, numa novela, uma filha colocar sua mãe numa tremenda saia justa porque suspeitou de que a mãe namorava seu namorado desde o tempo em que eles – a filha e o atual namorado da mãe - se namoravam. Por mais que a mãe explicasse que não era essa a verdade a filha, mesmo assim, agrediu e desrespeitou a mãe. Percebo que essa técnica de colocar desrespeitosa e autoritariamente as pessoas em saias justas cresce e magoa profundamente. A ausência de diálogo honesto, franco, sincero e liberto de traumas fantasiosos do passado impede muito os membros familiares e os relacionamentos de compreender o outro. A pergunta quem é você é reveladora do fracasso do diálogo e do respeito em relação ao outro. Quem pergunta isso demonstra que não caminhou o suficiente pela trilha da compreensão do outro. Nas instituições empresariais percebe-se a brutalização e estupidização do outro. O que mobiliza o interesse e premiação do outro são apenas os resultados de seu trabalho explorado. Mas a pessoa do outro não encontra compreensão e acolhimento satisfatórios.

Enfim, há longo caminho até praticarmos a alteridade, o amor ao próximo e o mais profundo respeito ao outro. Esse caminho é extremamente desafiante. Nessa última sexta-feira assistimos um Juiz muito bacana em entrevista no “Programa do Jô”. Contou suas experiências pelo Congo na África e a imensa e fome de quatro mil anos que desgraça milhões de pessoas lá. Mas também se referiu às prisões brasileiras onde seres humanos sub-vivem em condições de absoluta desumanidade. Relatou a situação de um presídio em Vitória –ES, onde num espaço para 33 pessoas vivem 1000 presos. Um deles teve um dos pés comidos por ratos.


Portanto, tenho a impressão de que se vivem contextos extremamente violentos e desrespeitosos, marcados por mentiras, por promessas não cumpridas, por traições de todos os tipos, que as pessoas se acostumam a desrespeitar e a incompreender o outro. O mundo das artes teatrais, literaturas e novelas é pródigo em retratar a incompreensão do outro. Como é difícil compreender e ajudar o outro, meu Deus...! Por isso mataram Sócrates e crucificaram Jesus.


*Dom Orvandil: Bispo cabano, farrapo e quilombola.

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