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terça-feira

Desrespeito e vagabundagem de seminaristas, padres e bispos

O escandaloso esbanjamento de eclesiásticos
 
José Lisboa Moreira de Oliveira
 
 
Correu o mundo a notícia de que o Vaticano afastou do exercício do ministério episcopal o bispo Franz-Peter Tebartz-van da diocese de Limburg na Alemanha, por causa do seu esbanjamento ao construir sua residência. O bispo teria gasto 31 milhões de euros na construção de sua "modesta casinha” de pastor. Soma que convertida em reais, segundo a cotação do euro no dia em que comecei a escrever este artigo, seria igual a R$ 79.360.000,00.


Fiéis protestam na casa do bispo de Limburg


A notícia causou impacto na grande mídia (sempre à procura de fofocas) e nas pessoas mais simples e honestas que ainda esperam dos ministros ordenados um testemunho de simplicidade e de pobreza, a exemplo de Jesus que "não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Porém, para observadores atentos, o luxo, a ostentação e o esbanjamento de muitos padres e bispos é uma constante. Se analisarmos cuidadosamente o caso do Brasil, vamos ver que, nas devidas proporções, muitos aqui não ficam longe do bispo alemão. A seguir alguns exemplos ilustrativos.

Há quase dez anos, quando eu era professor de teologia no Instituto de Teologia de Ilhéus (BA), visitei uma comunidade de periferia na cidade de Itabuna (BA). Lá me deparei com o caso de um seminarista diácono, meu aluno, que estava para ser ordenado presbítero. O seminarista havia exigido daquela comunidade pobre, como presente de ordenação, uma casula no valor de três mil reais. Valor esse exorbitante para a época e para as pessoas daquele bairro pobre de periferia. Tempos atrás um bispo auxiliar de uma grande arquidiocese, hoje arcebispo na região Sudeste do nosso país, costumava exibir publicamente seus esbanjamentos. Entre esses esbanjamentos estava o fato de que ele morava num condomínio de luxo da capital, cuja taxa de condomínio naquela ocasião era de dois mil reais. Outro bispo, de uma simples diocese do Centro-Oeste, esnobava nas reuniões da CNBB que havia gasto trezentos mil reais apenas com a construção e decoração do presbitério da nova catedral. Uma arquidiocese está para construir uma nova catedral, cujo orçamento ultrapassa os cem milhões de reais. Recentemente o bispo de uma diocese do Nordeste brasileiro, encravada no polígono da seca, decidiu construir um luxuoso seminário para seus seminaristas, fora da própria diocese, onde os mesmos estudam filosofia e teologia. Para pagar as dívidas da construção decretou que cada paróquia deveria contribuir com determinada quantia. Passei na ocasião por algumas dessas paróquias e pude perceber o sofrimento do povo que, além dos problemas angustiantes provocados pela seca, tinha que se virar para arrecadar a quantia exigida pelo bispo. Falando sinceramente, diante de todas essas extravagâncias praticadas num país pobre como o nosso, os gastos do bispo alemão não passa de simples "fichinha”.

O que causa estranheza é o fato de que tudo isso aconteça após a realização do Concílio Vaticano II, o qual pediu que os ministros da Igreja, especialmente os bispos e padres, primassem pela simplicidade e pela pobreza, seguindo o exemplo de Jesus (PO, 17). Causa mais surpresa ainda saber que os esbanjadores eclesiásticos são ministros relativamente jovens, formados após o Vaticano II. O bispo de Limburg, afastado pelo Vaticano, tem 53 anos. Isso revela que a formação nos seminários e a formação permanente não estão conseguindo ajudar os pastores a viverem segundo o modelo de Cristo Pastor.

No caso do Brasil, as pesquisas apontam que a maioria absoluta dos seminaristas é originária de famílias pobres da zona rural ou das periferias das grandes cidades. No atual momento há uma prevalência de seminaristas provenientes das periferias urbanas. E talvez aqui esteja o motivo da tendência ao esbanjamento, ao luxo e à ostentação. Por serem oriundos de situações de extrema pobreza, os candidatos tudo fazem para sair da situação de miséria. Isso é uma coisa até certo ponto normal. Qualquer ser humano que tenha passado por uma situação de privação, ao ter uma oportunidade de sair dela, fará isso normalmente. Os seminaristas não são exceção à regra.

O que se deve questionar é a incapacidade do processo formativo de educar esses candidatos para uma vida simples e pobre. Os seminários e a formação permanente deveriam ser capazes de contribuir para que o seminarista pobre permanecesse pobre, mesmo depois de padre. Deveria ser capaz de ajudar o seminarista a entender que antes ele era pobre porque o sistema social e econômico injusto o impedia de ter o necessário para viver dignamente. Agora, como seminarista ou como padre, ele será ou permanecerá pobre por opção vocacional: para seguir Jesus Cristo pobre, o qual, ao assumir a condição humana se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9). A formação deveria ser capaz de ajudar o futuro ministro ordenado a não ter medo de permanecer pobre; de, por opção vocacional, voltar a passar por situações de privação vividas anteriormente.

Mas não é isso que vem acontecendo. A formação nos seminários aburguesa. Os seminaristas recebem tudo de graça, não precisam trabalhar para se manter. Têm à disposição deles casa, comida, roupa lavada, transporte, médico, remédio, estudos, livros etc. Em muitos seminários os seminaristas nem sequer colaboram com a limpeza dos pratos nos quais comem e da casa onde moram. São raros os seminários onde isso acontece. Conheço seminários onde os seminaristas, depois do almoço, dormem a tarde toda e nem sequer leem os textos indicados pelos seus professores. Isso aconteceu muitas vezes com alunos meus. Eles não precisam se preocupar, pois há funcionários pagos pela diocese para trabalhar para eles. Pagos por um povo de bobos e de ingênuos, o qual ainda acredita piamente que ele tem obrigação de sustentar a mordomia de certos seminaristas, padres e bispos. Enquanto isso, a dona Maria e o seu José, funcionários do seminário, não conseguem tratar a saúde dos filhos e, menos ainda, pagar uma faculdade para eles, pois o salário minguado que recebem da diocese não é suficiente.

A medida drástica tomada pelo Vaticano contra o bispo alemão foi necessária, mas convém ressaltar que isso não resolverá o problema. É preciso, com urgência, mexer na estrutura eclesial viciada. Estrutura essa que trata os ministros ordenados como verdadeiros "príncipes da Igreja”, os quais se acham no direito de exigir do povo que sustente suas mordomias. É preciso rever todo o processo formativo, tornando-o mais leve, menos custoso e menos aburguesado. Sem desprezar o princípio bíblico de que o evangelizador tem direito a um salário digno (Mt 10,10), a Igreja precisa educar seus ministros ordenados a, como o apóstolo Paulo, trabalharem com as próprias mãos para o próprio sustento (At 18,3; 1Cor 9,13-15) e a se contentarem com aquilo que a comunidade pode oferecer para a manutenção deles (Lc 10,7-8). Mas para se chegar a isso é fundamental romper com todo o esquema eclesiástico atual, pautado no amor ao dinheiro. Sem ruptura, continuaremos a pôr remendos e a colocar vinho novo em potes velhos (Mc 2,21-22). Os escândalos continuarão a acontecer, uma vez que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

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