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quarta-feira

Teólogo luterano faz análise séria sobre médicos estrangeiros, principalmente cubanos




MÉDICOS/AS DO EXTERIOR? 

 Desde que a Presidenta Dilma anunciou a intenção de trazer ao Brasil médicos estrangeiros, particularmente cubanos, para atender áreas carentes no país, tem havido uma intensa campanha das associações médicas (e da grande mídia) contra o plano do Governo. Tenho pessoas de minhas relações familiares que são médicos/as e, pelo que tenho percebido, comungam plenamente dessa visão crítica. Contudo, com todo respeito que elas me merecem e mesmo sabendo que elas praticam a medicina de forma abnegada e competente, senti na campanha deflagrada desde o início um forte viés ideológico. (Veja chegou a falar da importação de “espiões” cubanos! Entrementes ficamos sabendo, porém, que quem nos espia diariamente é o NSA americano!) Também tenho sentido um viés nitidamente corporativista.

Como presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) entre 1995 e 2001 e desde 2006 como moderador do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), tenho tido a oportunidade de visitar Cuba e suas igrejas em várias ocasiões e pude testemunhar e experimentar a excelência do sistema cubano de saúde, e isso não apenas na capital, mas também em pequena cidade do interior. Apesar das penúrias econômicas pelas quais Cuba tem passado e do embargo econômico imposto pelos EUA, que impossibilita a importação de remédios e equipamentos médicos dos EUA, seu sistema de saúde é incomparavelmente superior ao brasileiro.
  
Faz-se necessário, portanto, um debate aprofundado em torno da questão. Nesse sentido, compartilho o artigo abaixo, que tomei do Facebook, postado por Leonardo Graciliano da Cruz. Mesmo que se venha a detectar algum viés ideológico também na exposição do artigo (a objetividade absoluta não existe!), ele traz bom número de dados objetivos e arrazoados que dão a pensar, também em relação ao Brasil. Chamo a atenção, em particular, à citação absolutamente positiva em relação ao sistema cubano do New England Journal of Medicine, órgão conceituado e insuspeito, na medida em que é uma revista especializada norte-americana.


Aliás, em 1987-88 passei um ano nos Estados Unidos como professor visitante de Teologia. Certa ocasião, pude compartilhar de um painel sobre o sentido da vida, entre outros, com um conhecido oncologista americano. Em determinado momento ele testemunhou que tendo integrado uma delegação de visita à Nicarágua, ele teria passado por uma verdadeira “conversão”. Seu “cálculo” era muito objetivo. Na época os Estados Unidos gastavam 11% do PIB americano em saúde. Desses onze por cento 4%, ou seja, quase 40% dos gastos com a saúde, eram para o tratamento de pacientes terminais, com o resultado médio de prolongamento de vida desses pacientes em um mês! Ou seja: 4% do PIB americano para prolongar a vida de pacientes terminais em um mês. A “conversão” se deu quando esse médico perambulou pelas áreas empobrecidas de cidades da Nicarágua, viu a precariedade das condições de higiene e saneamento, as crianças descalças e subnutridas. Ele se perguntou: quantas vidas poderíamos salvar ao redor do mundo com aqueles 4% do PIB americano, através de medidas muito simples e com ênfase na medicina preventiva?! A pergunta não apenas o inquietou, mas mudou a maneira de encarar sua própria profissão. E sabemos que isso é um processo penoso.

Uma das organizações que eu admiro (e apoio) é a Médicos sem Fronteiras. Com limitados recursos financeiros (oriundos em grande parte de doações espontâneas), mas com médicos e médicas e outro pessoal da área médica e de apoio dispostos a ir aos lugares mais distantes, em condições precaríssimas, muitas vezes em regiões com conflitos bélicos, previnem doenças e salvam inúmeras vidas. Fazem a diferença. O Brasil precisa de melhores recursos materiais para a saúde? Sem dúvida, e muitos. No entanto, recursos materiais jamais serão suficientes para um bom sistema de saúde, se não forem antecedidos e depois acompanhados por um forte sentido vocacional de quem exerce a medicina. Inversamente, havendo esse sentido vocacional e uma perspectiva de medicina integral e preventiva, uma sensível melhora nas condições de saúde de um povo é possível, mesmo com escassez de recursos. Até verdadeiros milagres acontecem.
Bem-vindos, pois, esses profissionais da medicina. Do Brasil e de qualquer parte do mundo.


(Segue o artigo mencionado.)

De postagem no Facebook, por Leonardo Graciliano da Cruz
Por que os médicos cubanos assustam. Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.


Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste
Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.


E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.


Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.


Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.


Sem compromisso em retribuir os cursos públicos


Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.


Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.


Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.


Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.


Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades


Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.


Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.


A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536. Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.


A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.


A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.


Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia


Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde. Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.


Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.


Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuído por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.


Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.


O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.


Formando médicos de 69 países


Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.


Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.


Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.


Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue. Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.


Presença de médicos cubanos no exterior


Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.


No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.


No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.


Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

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