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segunda-feira

"Não posso fazer nada" e o grito dos/as excluídos/as da saúde





Querida Maria Beloni de Freitas

Uma profissional da saúde, técnica de enfermagem, contou-nos um fato estarrecedor, recentemente acontecido aqui em Goiânia. O evento descreve que um jovem portador de esquizofrenia aguardou por três meses um medicamento fornecido pelo SUS. Ao cabo desse prazo dirigiu-se ao hospital onde recebe tratamento. Infelizmente, em virtude do caos do trânsito dessa cidade, atrasou por alguns minutos até chegar ao local. O médico responsável negou-se a atendê-lo após sua chegada para apanhar o  remédio. Descontrolado, o rapaz quebrou toda a sala e os equipamentos do departamento sob a responsabilidade da profissional que nos relatou o dramático episódio. O médico chamado mais uma vez a atender o enraivecido paciente negou-se  usando a mais safada e alienada das desculpas: “não posso fazer nada, ele chegou atrasado.”  

   1. A profissional demonstrava profundo sofrimento em face do desprezo do médico pelo próximo. Contou-nos a situação dizendo que o médico não se importou  com a pessoa do paciente nem com os bens públicos que foram quebrados, completamente alienado, certamente estribado no formalismo burguês do cumprimento tão somente dos “deveres” “profissionais”, como define Max Weber. Infelizmente, Maria, vê-se muito disso em toda a parte. Conheço pessoas maravilhosas, mas que não movem uma palha a favor das pessoas, apenas agindo nos limites do cumprimento de suas “tarefas” “profissionais”. Tal conduta alienada e acomodada guia o comportamento desumano e injusto de pessoas que deveriam agir conforme os direitos humanos objetivando mudar o mundo, mas que nada fazem. Neste caso o rapaz poderia ser atendido e a situação violenta movida por seu senso injustiçado poderia ser evitada. Ou será que o médico quis provocar o quebra-quebra promovido pelo moço para demonstrar a calamidade da saúde? Pela frase infeliz e alienada usada por ele não creio que teve consciência do ato como forma de protesto. Foi alienação mesmo e exercício burguês da missão da medicina.  Porém a frase lugar comum – “não posso fazer nada” – é a mais pura e safada demonstração de alienação e até de má-fé. A frase é uma profissão de posição ideológica. Nesse país muitos a pronunciaram quando viram lutadores serem presos e mortos pela ditadura. Muitos insensivelmente a rezaram em face da miséria de milhões de irmãos/ãs que mergulharam no desemprego e na miséria. Muitos lavam as mãos em face de injustiças cometidas em instituições e organizações, na prática de injustiças por executivos truculentos, omissos e injustos, que demitem e humilham profissionais e trabalhadores, sem sequer conversar e ouvir suas razões. A frase “não posso fazer nada” revela a falta de consciência e de ética em face da realidade das pessoas, principalmente das que urgem justiça. Nesta frase é implícita a omissão, principalmente quando se diz “não posso”. Não posso porque me omito, não posso porque minha consciência é pobre de compromisso humano. Não posso porque apenas viso o meu ganha-pão, porque apenas vejo meu nariz e meu umbigo e nada mais. A história dos “não posso fazer nada” é a história das nuvens brancas, que não dispõem de nenhuma gota de água para ajudar a vida. No cemitério as sepulturas dos “não posso fazer nada” serão como suas vidas, apenas um lugar de degradação e de extinção, sem nenhum sinal de vida e de luta. Muitos dos “não posso fazer nada” permitiram as mortes de milhões de inocentes no holocausto de Hitler, como muitos permitem hoje a morte pela fome de milhões de africanos, como o massacre de palestinos por parte do imperialismo americano e do racismo israelita. Os “não posso fazer nada” ocupam espaços para impedir o avanço da vida e da humanização. São tão responsáveis pela maldade quanto os que a promovem consciente e deliberadamente.   
   
   2. A postura do dr. “não posso fazer nada” escancara a situação de nossa chamada saúde pública. Desgraçadamente a direita encarnada pelos partidos Democratas, PSDB e PPS, com o medíocre desejo de prejudicar eleitoralmente o então Presidente Lula, golpeou os recursos advindos do antigo CPMF, caçando este imposto retirado dos cheques dos ricos e pauperizaram ainda mais nossa precária saúde. Hospitais, postos de saúde, salários de profissionais como médicos, enfermeiros, psicólogos etc jazem abaixo da dignidade. Aqui em Goiás, governada por um governador de direita a serviço da elite dominante e egoísta, concentradora de riquezas e de bens, os serviços à saúde são os  piores do País. Os postos de saúde são recantos de mau atendimento. Os leitos não dispõem de lençóis para trocas nem higiene. Os equipamentos são paupérrimos, velhos e sujos. Os/as trabalhadores/as são estressados porque mal pagos/as e explorados/as.  Os ambientes são superlotados e se assemelham a currais, onde seres humanos são tratados pior do que os animais do agronegócio. Portanto, a posturas dos drs. “não posso fazer nada” não resolve coisa alguma. O noticiário dá conta de que a Presidenta Dilma pensa em novo imposto que taxe os ricos com o objetivo de levantar recursos para a saúde. É justo que assim seja, pois os ricos são os que menos pagam impostos e os que mais sonegam. Devem arcar com mais contribuição com o bem-estar social. Porém, penso que deveríamos criar o movimento “O grito da saúde”, semelhante ao “grito dos/as excluídos/as”, pois milhões de excluídos adoecem e morrem imerecidamente por falta de justiça nessa aérea. 
     
     Abraços com saudades, querida tia Maria Beloni de Freitas.

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