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terça-feira

Teria Maria traído José?



Querida Profª Lízia Leão

Permite-me que te cumprimente por tua forma de ser pessoa e mulher. Imagino a medida com que as organizações escolares, onde atuas como coordenadora pedagógica, devem exigir de ti, profissional competente que és, capaz de dialogar com vários setores institucionais, com repercussão social e nas vidas das famílias dos alunos. Penso nas tensões diárias que tens que enfrentar e encaminhar e nas pessoas com quem articulas as tarefas árduas do agir educacional. Certamente o fazes com muita competência, zelo, disciplina, cuidado, sensibilidade, poesia – já que és poeta – sonhos etc. 

Admiro-te como mãe, no exercício do ser mulher: corajosa, empreendedora, sonhadora e promotora da independência maturativa de teu filho. Quando falas nele e em suas primeiras experiências acadêmicas como estudante de uma universidade federal, morando à distância da família, preparando-se para ser cidadão autônomo e forte, o fazes com alegria, esperança e emoção. És também mãe de uma criança especial. Nessa tarefa  te vejo firme, mas sempre aberta a aprender com ela. Vives com ela verdadeiro curso permanente de especialização. Isso é admirável e rico. 

Enfim, Lízia, teria muito para falar de ti sobre ti mesma. Porém, convido-te a pensar comigo sobre a chamada família sagrada, que tanto nos toca. Mas queria te falar desde uma ótica puramente humana, que muito me comove. Vejo e escuto muita romantização e idealização sobre Maria, José e o nascimento de Jesus, envoltos em exacerbada iluminação de luzes e pinheirinhos coloridos. A sagrada família  é despojada violentamente das realidades  humana e mundana que a produziram. Essa romantização despe José de suas condições humano-masculina, social , cultural e econômica, em  nosso próprio prejuízo, infantilizando-nos. Nesse momento natalino penso muito em José e Maria, vivenciando enorme conflito sócio-familiar. Comovo-me com sua momentânea tragédia e com a força emancipada da mulher Maria. Queria pensar sobre isso agora, contigo,  a partir de sentimentos e dramas bem humanos.

1. José: Gosto muito do modo como o falecido escritor Saramago escreveu sobre José. Este era um carpinteiro, portanto, trabalhador palestinense profundamente pobre e oprimido, integrante da classe escrava e súdita do império romano explorador. Era noivo de uma guria chamada Maria. O Evangelho não fala em amor e paixão entre eles, mas em participação no plano da salvação. De repente o rapaz se depara com a gravidez da noiva, sem sua cópula. E aí? Quantas perguntas, angústias, incertezas, inseguranças. Na edição pastoral da Bíblia Sagrada lê-se claramente que José suspeitou de traição: “José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria, e pensava em deixá-la, sem ninguém saber”(Mt 1, 19). Esse versículo, entre o 18 e o 20, onde se teologiza a gravidez com a explicação do engravidamento pelo Espírito Santo e o consolo pelo anjo, há verdadeiro abismo escuro e fundo, onde se enfia José, marcado pelo rebaixamento de sua estima, de sua honradez, da autoconfiança, de seus sonhos, de sua condição de classe. Então, amiga, se a gente “vestir” a pele de José há de se sentir a enorme dor da sensação da traição, com perda de valia. Os próprios Evangelhos maltratam a traição e quem trai. O fim é melancólico, sinalizado por remorso, depressão e suicídio.  Ora, quem sente isso tudo ante a morte como conseqüência da traição é porque, mais ou menos, experimenta esse peso durante a dura desconfiança. Desconfiança de traição em qualquer campo é viver duramente entre as chamas do inferno de sentir-se traído. Perguntas povoam a alma: o que as outras pessoas pensam e como me julgam? Que devo fazer? Perdoar, afastar-me, denunciar, botar a boca no trambone? Devo morrer? Por que logo comigo? Confiei tanto...etc, etc e etc. Será que essas perguntas torturavam José, também?

Então, Lízia, como o natal é evento de família, normalmente se faz festa e se passa por cima de situações tipicamente humanas, que estão na base dos relacionamentos conjugais. Penso muito no José. Compreendo suas angústias e incertezas. Certamente esse problema existirá sempre enquanto existir relacionamento...

2. Maria: quando olhamos José a partir de Maria sua imagem como homem traído muda. José sonha...Todos os traídos sonham, normalmente com pesadelos. Mas José sonhou que um anjo o avisou de que Maria fora engravidada pelo Espírito Santo. Na verdade, Maria engravidou  de  um grande projeto de salvação. O anjo lhe diz: “...não tenha medo de receber Maria como esposa, pela ação do Espírito Santo”. Interessante: anjo vem de angelos no grego e quer dizer mensageiro, aquele que traz uma mensagem, um aviso, geralmente de parte de quem governa. José, em sua escuridão interna, precisava de um anjo, de uma mensagem que o impulsionasse para fora do seu porão sombrio. Sentia medo. Ah, eis a experiência masculina com a sensação de traição: não há homem que agüente uma traição sem medo e sem insegurança. O medo encolhe o sujeito, diminui, minimiza, desautoriza, imobiliza, sufoca, marginaliza, destrói, distorce, confunde e mata. Mas o anjo, desde a gravidez de Maria, puxa José para fora de seu drama e incertezas. Noutras palavras, José é incluído no projeto de salvação, de libertação do povo. Logo a seguir ele aparece integrado e ajudando Maria. Seu primeiro ato é o de dar nome a Jesus. Isso implica em comprometimento profundo. Dar nome a algo ou a alguém é dizer que entendeu do que se trata e que se comprometeu até as fibras mais profundas do ser. Logo a seguir, após o nascimento de Jesus, José se solidariza com Maria na fuga para o Egito, no esforço de libertar Jesus da matança de crianças, promovida por Herodes, representante terrorista na Palestina do poder imperial romano. José encontra conforto na luta ao lado de Maria, na iminência de perder seu filhinho e no empenho por fazer sua parte no grande projeto de salvação do povo. O enfrentamento era duro: dum lado a família engajada, mesmo à margem do poder dominante, disposta a subverter a perseguição e refugiar-se no Egito, como memória da libertação empreendida pelos pobres comandados por Moisés, séculos antes, em direção à terra prometida, de outro, o sonho e a participação pessoal na arrancada libertadora e salvadora, com todos os riscos do projeto. José aparece nesse cenário com outra postura: sem medo, solidário, corajoso, engenhoso e forte. 

3. Conclusão:  a)José, na verdade, lidava não só com uma mulher, mas com outro ser humano representado por Maria. Mesmo que se trate de um noivado ou de um casamento, o parceiro sempre é outro e não a gente mesmo. Como saber com certeza o que o outro sente, faz e projeta? Nada nos dá essa certeza. Como saber com certeza dos envolvimentos do outro e seus projetos mais profundos? O que fazer com as surpresas apresentadas no outro e pelo outro? Afastar-se, falar, gritar, denunciar, silenciar?  b)Ao sonhar, José mergulhou no mais profundo de sua alma, de seu ser. Lá encontrou com o anjo, com o projeto de salvação. Parece certo que os ruídos confusos da sensação da traição superficializam as pessoas. É preciso aguardar o momento do mergulho na consciência e nas águas calmas. Lá estão as melhores mensagens, o mais abençoado projeto de salvação, a autonconfiança e  as forças para a luta. É bom destacar que a mesma palavra salvação no original grego do novo testamento é a mesma para cura. Então, quando conseguimos mergulhar nos sonhos haveremos de sempre reecontrar o sentido que liberta e cura do sofrimento, por pior que ele seja. Lá está o Egito, isto é, o recomeço, a retomada da libertação, da luta e dos melhores modelos de vida, bem ao contrário do medo e da autocomiseração. José e todos os humanos precisamos do mergulho nos sonhos e da articulação com projetos que nos arranquem do porão, onde residem os fantasmas e os pesadelos.

Desejo-te boas comemorações natalinas com a família. Desejo-te forças e bons encontros com teus sonhos e muitas alegrias nesse natal e sempre.
Abraços.



    



    


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