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sábado

TRÊS EX E O MODELO DESUMANO

Por Orvandil Moreira Barbosa*


Nessa semana conversei com 3 ex-seminaristas. Um militante de esquerda e trabalhador, o segundo, estudante de filosofia e o terceiro, professor de história. Impressionante!

Do primeiro ouvi uma frase comovente, carregada de emotividade: “Fui para o seminário porque eu queria ser padre. Eu queria ser padre”. Contou sobre sua vida dura e de fome antes de ingressar na casa de formação sacerdotal. Desistiu de seu objetivo por se decepcionar dolorosamente com o choque contraditório do discurso de seus superiores e padres. Por um lado, pregavam o celibato obrigatório e a castidade inviolável. Por outro, quando flagrou seu provincial em plena relação sexual com a filha da cozinheira na dispensa do seminário, a altas horas da madrugada, chocou-se profundamente. Para piorar sua decepção, o próprio provincial o perseguiu, constrangendo-o a se desligar do curso seminarístico. O rapaz não suportou o sofrimento e se afastou. E o que ele depunha o fazia em face de inúmeras pessoas que aguardavam uma reunião importante.

O segundo ex-seminarista me deu o prazer de sentar comigo durante 3 horas num banco de praça. Sua história é comovente e não se distancia muito do que relatou o primeiro. Mas acrescentou detalhes impressionantes ao depoimento: por exemplo, que a direção do seminário desligava a campanhia para não atender o povo que chegava para pedir ajuda e socorro em situações de limites. Uma ordem taxativa foi dada para que não atendessem as pessoas na hora das orações. Primeiro rezar para depois, se fosse possível, compartilhar amor ao próximo. Catequese dada pelo seminário a capelas pobres não eram continuadas porque os pobres eram muito carentes. Mas a marca de sempre eram os escândalos sexuais através da pedofilia, da homo-sexualidade escandalosa e até de contradição com o celibato e a castidade impostos.

O terceiro, para encerrar o dia, é um professor da rede pública. Um professor competente, muito amado e respeitado por seus alunos. Mas é chocante saber dele que foi molestado sexualmente num seminário, aos 10 anos de idade. Repito: foi molestado sexualmente aos 10 anos num seminário, onde fora estudar para se tornar padre. Os pais e sua família confiaram na instituição eclesiástica que o acolheu. Ele confiou nas autoridades da Igreja e se jogou nos braços da vocação, ainda criança. E o que aconteceu? Foi violentado e vive hoje com enormes tormentos, que já alimentaram nele idéias de suicídio.

Interessante, eu venho de uma estrutura agrária. Na minha infância sempre convivi com homens rudes e sofridos pelo trabalho árduo nas lavouras de arroz. As geadas, o sol, a chuva e a dureza do trabalho do plantio e da colheita de arroz os faziam muito sofridos, rudes e de gestos duros. Participei com muitos deles em trabalhos nas lavouras, nos galpões, nas matas, à beira dos rios etc. Mas nunca houve de parte de nenhum deles qualquer insinuação de abuso com relação a mim ou a outras crianças. Nunca vi nem soube de quaisquer tentativas de abusos ou molestações por parte de trabalhadores rurais, alguns deles lumpenproletários.

Mas saber de barbaridades praticadas no âmbito de instituições cristãs é de doer e de rebentar qualquer pessoa. Nada mais contraditório do que isso. Saber de padres, de provinciais e de pastores que violentam crianças é de um nível de revolta que perturba.

É impressionante o grau de ignorância e de desumanidade de muitos líderes religiosos. Eles não só são contraditórios por pregar coisas e fazerem outras. Eles são ignorantes com relação à natureza humana. Como não prever os enormes danos que podem praticar a crianças ao ser tão estúpidos ao ponto de molestá-las e de violentá-las? Como são insensíveis, desumanos e grosseiros. Como pode um provincial ter relação sexual com uma adolescente, filha de uma trabalhadora, em plena dispensa de mantimentos do seminário? Como pode um padre violentar um menino de 10 anos, apenas? Queremos mais sinais de satanismo do que isso?

O estudante de filosofia, o segundo ex-seminarista, comentou que muitos fazem essas barbaridades escorados na noção do perdão que receberão. Sabem que serão perdoados e, se for o caso, até premiados com transferência para paróquias e instituições até melhores do que onde estavam. Serão aconselhados e receberão algumas orientações psicológicas e tal. Mas e as crianças violentadas e suas famílias, como ficam? Como ficam as meninas grávidas de forma irresponsável e sem compromisso? Como ficam os vocacionados que se entregaram cheios de fé e inocência às mãos de autoridades, que os escandalizaram e rebentaram?

No fundo, as causas de tudo estão num modelo de ser igreja, totalmente falho, desumano e injusto. Esse modelo não tem relação nenhuma com Jesus e seu Evangelho. É totalmente vinculado ao império, que tudo faz e por ninguém é cobrado, investigado e punido. Sua forma de ser a partir de uma noção violenta e anti-natureza de celibato obrigatório é responsável pela desumanização, frieza, insensibilidade e despreparo de seus quadros. Esses homens não sabem lidar com as crianças nem com as mulheres. São brutos e estúpidos. Não conhecem se quer a sexualidade humana. Quando se descontrolam ferem a todos/as com quem se deparam. Um sistema que cria padres de redoma, sem convivência com as pessoas, fechados em instituições, ignorantes da natureza humana e da realidade cotidiana, só pode gerar monstrengos dos tipos relatados pelos ex-seminaristas.

Contudo, não me iludo, esses problemas não se restringem à igreja romana. Muitas, ou todas, têm esse tipo de problema. Mas a romana é campeã. Inclusive no que tange à desistência dos seminaristas e de padres em relação ao sacerdócio e ao ministério, todas são iguais. As pessoas que saem da influência de seu clero são maltratadas e “jogadas no mundo” sem a menor preparação. Muitas são estraçalhadas quando precisarão de trabalho, de moradia e de alimentação. Os santos que as acolheram as demonizam de maneira brutal e desumana. Conheci um rapaz em São Paulo, brilhante e inteligente, que estudou como seminarista num outro País. Quando voltou desejou namorar e casar. Daí necessitou de emprego. Preparou um currículo e como principal referência colocou seu bispo como pessoa que o conhecia e por ele poderia dar excelente depoimento. Que surpresa dolorosa ele teve. No primeiro emprego que surgiu numa empresa grande, que pagaria bom salário, o diretor ligou para seu bispo para checar as informações do currículo. O bispo solicitou que não dessem o emprego para o rapaz porque ele era subversivo, comunista e rebelde perigoso. Evidentemente que a empresa não deu o emprego para o jovem, apesar de gostar muito de seu currículo, graças a informações ideológicas e preconceituosas dadas pelo seu bispo, pelo seu pastor.

A melhor proposta de igreja mais humana, mais fiel ao projeto de Jesus é a que ligue seu clero e seus quadros à família, ao trabalho e à realidade. Seus líderes devem ser preparados para entender a natureza humana, com suas complexidades e desafios.

*Dom Orvandil: Bispo cabano, farrapo e quilombola.

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