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quinta-feira

Hadadd: entre a “cracolândia”, os mutilados e os excluídos





Amigo Prof. Estêvão 


Apreciei e me emocionei com nossa reunião do Comitê da Educação hoje acontecida aqui em Goiânia.


Ao debatermos as bases de um projeto educacional que eleve o nível de consciência das pessoas envolvidas, com todos do comitê plenamente de acordo, é algo que nos diferencia enormemente do que se coloca aí em nosso contexto brasileiro. 


Sabes, e bem o demonstraste hoje, que as escolas na sua grande maioria, desde as séries iniciais às pós-graduações, são pura desonestidade. 


Utilizar a educação para reforçar a alienação e o exercício opressor dos que Gramsci denomina de intelectuais orgânicos do bloco histórico dominante capitalista, principalmente com esse discurso remissivo ao mercado desumano e injusto, é ignorância, má-fé e deslealdade com a real missão da educação. 


Instituições ditas educacionais e igrejas neoliberais e fundamentalistas têm os mesmos propósitos. Ambas utilizam a educação como produto comercial de qualidade inferior como moeda para enriquecer seus donos e mentir que educam. 


Apreciei imensamente o termo “mutilado” que usaste para demonstrar a situação depreciativa a que o povo e os trabalhadores são jogados pela classe dirigente, tanto na sua relação com a sociedade civil quanto com a sociedade política, no dizer gramsciano. 


Comentamos em nossa reunião a gritante situação da classe trabalhadora, cada vez mais espremida pelo trabalho quase escravo a que os patrões a submetem. Também em nossa inspiradora reunião nos referimos aos gritos da juventude através dos rolezinhos, das manifestações de ruas, do enfrentamento da violência policial, principalmente a matança de jovens negros e gays. 


Pois bem, surpreendi-me ao ler sobre a visita que o Prefeito Fernando Hadadd fez à “cracolândia” em São Paulo para conversar – falar e ouvir – com os moradores daquele verdadeiro depósito de mutilados humanos, numa coincidência do que falamos em nossa reunião. 


A foto que encima este artigo mostra Hadadd conversando com jovens negros. O prefeito ouviu elogios e questionamentos dos ex-moradores da cracolândia, sem intermediários e sem mentiras. Os usuários de crak mostraram-lhe medo, preocupação e senso de justiça quando lhe perguntaram: “Vai registrar a gente?”. “É só até a Copa ou é pra valer, de coração?”, “O senhor acha que quinze reais por dia é um salário digno para gente?" (Leia mais aqui). 


Impressionantes as manifestações mostradas ao primeiro mandatário municipal. “Não é o primeiro trabalho que eu iria procurar, mas vou agarrar essa oportunidade com todas as forças. Estou muito confiante”, disse Vandeilda Benedito da Silva, a Vanda. A RBA conversa com Vanda e seu companheiro, Renato Pereira, o Tim, desde segunda-feira. Mas o casal, usuário de crack e álcool, nunca se permitiu fotografar. Hoje, orgulhosos, eles posaram e deram entrevistas a canais de televisão. “Agora pode porque se minha mãe me vê vestida assim, com certeza vai ficar orgulhosa. Até porque ela é gari também”.

‘Márcio Alan, com tom menos crítico, mas “sem babação de ovo”, agradeceu ao prefeito pela oportunidade e contou que está há dois dias sem usar drogas e se sente mais saudável depois de passar a noite em um dos quartos de hotel reservados na região, onde pode tomar banho.’


A atitude de Fernando Hadadd significa compromisso público com um setor dos mais mutilados do lumpemproletariado da classe dos subalternos, mas seres humanos sempre escanteados pela elite e pelo Estado. Parece-me eloquente demonstração de que o Estado tem que resolver os problemas causados pelo capitalismo que despreza o povo e os pobres que gera.


Ao entrar no meio da cracolândia o governante deu visibilidade construtiva ao povo. Muitas autoridades passaram por ali antes de Hadadd e lhes viraram a cara. Em campanhas eleitorais passadas esses irmãos foram utilizados como elemento demagógico, mas continuaram lá, abandonados. 


Aprecio e me emociono com autoridades que andam de ônibus urbano, que frequentam os ambientes populares com o objetivo de sentir do povo seus sofrimentos, sonhos e contribuições cidadãs, como no caso do grupo mencionado, incorporado no trabalho municipal como garis. 


Há momentos no filme Nelson Mandela que emocionam pelo testemunho de um grande homem que soube ouvir e corrigir o povo. Quando já presidente da África do Sul Mandela vai até a um grande jogador que servia o apartheid para convencê-lo a jogar na seleção nacional e contribuir com a unidade do povo e depois convence seus companheiros de partido a apoiar sua ação política. Noutro momento Mandela sai do palácio presidencial e vai a um bairro onde se reúne o Partido do Congresso Nacional para debater os interesses do povo. 


O Presidente Pepe Mujica do Uruguai é exemplar na simplicidade de ir a padarias, supermercados, bares e às praças conversar com o povo. 


O governante que é comprometido com o povo, com os mutilados e, sobretudo, com as lutas pelas mudanças não vacila em encontra-se com os pobres e sofridos para entender seu o sofrimento. 


É nesse sentido que a educação deve agir, meu amigo, e não para enriquecer donos de escolas e de faculdades. Por isso apoio o rigor com que o MEC atua e até fecha instituições que comercializam o ensino e desonestamente favorecem a mercantilização da educação. 


Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.

Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano.

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