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segunda-feira

Eduardo não é covarde, foi iludido

Maluf, Gaspari, Cesar Civita, Victor Civita, João Figueiredo e Augusto Nunes






Prezado Jornalista Eduardo Guimarães


Li teu depoimento (aqui) sobre a obscuridade em que vivias durante as trevas do golpe militar – este que facínoras e ignorantes chamam de revolução redentora. Meu querido, minha alma dói com o que confessas.

Não sei se leste o meu artigo sobre a tensão que se vive entre o ser Judas e o ser Pedro (aqui), drama consciencial que denominei de arquétipos que comandam decisões em face de conflitos que o ser humano é obrigado a enfrentar.  Parece-me que vivenciaste essa experiência nos tempos de trevas e sabor de chumbo derretido de nossa história brasileira recente. 


Permite-me, Eduardo, que te chame de amigo. Na verdade te tenho como amigo. Teu blog é um dos mais freqüentados por mim. És meu amigo até em virtude de uma imposição lógica que nos empurra para o mesmo campo de amizade. Defendes muitas ideias que são as mesmas que me inspiram, como a da democratização da mídia, como a dos direitos humanos, como a liberdade de religião em um Estado laico, da Nação soberana e para o povo, da luta contra o neoliberalismo ainda vivo e prejudicial, sustentado por governantes de mau caráter como Marconi Perillo, Beto Richa, Geraldo Alckmin, Anastasia e outros de menor porte, que desviam a energia e os recursos de nosso povo para sustentar a pilantragem da direita e de sua mídia serviçal.  Somos amigos da mesma causa. Por isso senti tua dor na confissão que fazes. 


Não quero te consolar nem precisas disso, Eduardo. Mas o contexto em que vivias no período da predominância da bandidagem ocupando o aparelho de Estado, era muito difícil às pessoas perceberem a cruel realidade promovida pela ditadura, como era o caso de teus pais e de muitos brasileiros. Porém, digno de nota nesse contexto era a tua curiosidade e inteligência, muito representativa da inquietação de milhões de jovens brasileiros e latino americanos, como teu amigo Daniel, certamente brutalmente torturado e assassinado como muitos de nossos heróis.  Esse era um dos grandes objetivos dos criminosos que assaltaram o Estado brasileiro: eliminar a juventude brasileira, inteligente, instigante, questionadora, genial, rebelde, revolucionária e ousada. Os ditadores fardados usaram todos os meios para te atingir bem como a todo o povo brasileiro: a manipulação das notícias, a demonstração de shows de liberdade na qual os militares facínoras não acreditavam, prisões, torturas, assassinatos e, sobretudo, o medo. Teus pais foram fustigados pelo medo. Temiam te perder. Certamente percebiam tua inteligência e inquietação. Eras presa fácil, certamente pensavam, como aconteceu com o Daniel. 


Destaco, contudo, Eduardo, uma coisa nobríssima, entre muitas, de teu caráter cidadão. Na verdade és muito corajoso e honesto. Confessas o que chamas erradamente de a tua “covardia” em te calares com medo. Confessas tua dor por não seguires em frente quando soubeste a verdade despejada em tua consciência pelo heróico e sacrificado Daniel e por não seguires o exemplo dele após seu desaparecimento. Tua confissão através de teu blog, que repercute em centenas de outros sites, é ato de nobreza de uma personalidade cidadã. Isso é exemplo para todos os brasileiros. Escancaras tua alma iluminada pela coragem. Quantos que traíram e se calam; quantos militaram naqueles tempos entregaram-se às algemas da imbecilidade e até pensam que a revistinha Veja é séria; quantos se venderam ao neoliberalismo e ajoelhados lambem as botas dos assassinos; quantos ex militantes hoje são covardes acomodados e vendidos; quantos se calam em face de tantas injustiças e, em nome de profissões, não se posicionam em favor do povo e da democracia social: até adoram se autodenominar de profissionais, por isso não confundem ideias com cargos e funções covardes que exercem.  


Enquanto isso, Eduardo, vens a público compartilhar a dor de tua alma. Na verdade, tua confissão ventila uma grande denúncia: uma das maquinações da ditadura era a de mentir e de intimidar. A mídia que aí está recebeu caminhões de dólares para prestar o “serviço” de enrolar o povo, até usando as Copas do Mundo para enganar a opinião pública. Cresceu e se transformou em gigantes como a Globo e seu complexo mediático, a Veja e outros órgãos onde jornalistas vendidos e apodrecidos exercem a função de mentir e de enganar, tudo em nome de miseráveis salários e de empregos subservientes. Jornalistas mentirosos e vendidos são como policiais usados por governantes neoliberais e corruptos para bater no povo que reivindica direitos. Mentem ganhando mal enquanto suas empresas enchem carrocerias de lucros com o dinheiro público. Tens razão: hoje vivemos sob a ditadura da mentira. Vale ressaltar que ditaduras necessitam contar com covardes e mentirosos em todas as funções. 


Interessante, Eduardo, desde a semana passada renovo minhas leituras sobre o golpe de Estado dado em 1º de abril de 1964. Minha consciência se encontra em estado de brasas. Também me recordei de uma coisa triste que fizeram comigo, mas felizmente não cai na emboscada. Mais ou menos com a mesma idade que te inquietava me preparava para ir para o seminário, estudando no Instituto União em Uruguaiana – RS. Graças ao meu dom de falar em público fui convidado a cuidar de uma comunidade em Itaqui, mais ou menos 90 km de Uruguaiana, viajando para lá nos fins de semana. Ora me hospedava num internato de propriedade do Prof. Silas Moraes, ora me hospedava na casa do Tenente Coronel Rondon Guimarães, comandante do Quartel. Silas era militante do PCB, da mesma corrente de Luiz Carlos Prestes. Aquele professor era exemplo de generosidade, de consciência, de amor ao próximo, de sabedoria. Dedicava muito tempo a conversar comigo e a me conscientizar, levando em conta todos os cuidados com a segurança, é claro. Quando me hospedava na casa do Coronel era submetido disfarçadamente a seções de interrogatório sobre o que eu vira e percebera na casa do Prof. Silas. Numa vez chegou a me interrogar claramente se o Silas comemorara o aniversário de Prestes, jogando bombas nos fundos da escola. Chegou até a ameaçar impondo que eu fosse verdadeiro, porque os militares esperavam uma derrapada do professor para prendê-lo e sumir com ele. Disse-me que aquele homem era muito perigoso para o regime e para democracia que desejava restaurar no País. Felizmente, sentindo algo estranho, principalmente o ódio e a arrogância nos olhos e gestos do coronel, muito diferente da bondade do professor, eu disse que não sabia de nada, que Silas nunca falara nada comigo e nunca mais me hospedei na casa daquele fascista. Mais tarde ele foi premiado com a patente de general e também nunca mais olhou na minha cara. O pior de tudo que Rondon era filho de minha melhor professora de geografia, com quem aprendi verdades geográficas que até hoje me situam no mundo. (Eita, quanta contradição nessa vida!)


Porém, meu amigo, minha alma doeu por muitos anos como se eu tivesse traído o Prof. Silas Moraes. Sentia-me mal porque nunca advertira o professor dos riscos que corria e da espionagem de que era alvo, inclusive me usando como inocente adolescente, embora rebelde e inquieto. Até que um dia, num velório, encontrei o prof. Silas e o chamei para um lado. Contei-lhe o fato e aos prantos lhe pedi perdão.Confessei-lhe que eu não entendia o que acontecia. Fui verdadeiro com ele. Senti medo de ser usado dessa forma em muitas outras vezes e outros eventos. O Prof. Silas, movido pela beleza das almas nobres, me disse que eu ficasse em paz porque ele sabia de todos os movimentos da ditadura e que conhecia muito bem Rondon Guimarães, um velhaco e  covarde servidor da ditadura. 


Compartilho de tua tristeza ao perceberes a cegueira de muita gente hoje. O nível de alienação é espantoso. Sem dúvidas, uma das razões de tão grande escuridão de consciência é a atuação safada da mídia dominante, que o governo Dilma teima em não democratizar e o Congresso Nacional intimida-se em regulamentar os artigos constitucionais que modelam o papel da imprensa na democracia. Outra razão é a timidez da esquerda no Brasil, que se afastou do povo, cujos partidos viraram escritórios de registro de candidaturas e em empresas de campanhas eleitorais, sem a combatividade que nos movia na luta contra a ditadura. 


Alegro-me com teu trabalho Eduardo. Exerces missão grandiosa semelhante à do filósofo que gritava aos acorrentados e prisioneiros às siluetas da realidade projetadas ao fundo da caverna, como simboliza Platão no Mito da Caverna. O filósofo arrancou as correntes que prendiam os escravizados da mentira. Porém, logo que libertos, os homens ao invés de correr em direção à luz mataram o filósofo que a anunciava. Mesmo correndo esse risco, é melhor sermos como Daniel que revelou a verdade que te libertou do que sermos covardes que perseguem os que lutam pela verdade que liberta.


Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz.


Dom Orvandil: bispo cabano, farrapo e republicano.

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