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quarta-feira

“Fidequem?” e penis pregados



Prezadíssima Profª Umbelina Carolina Alvellos Macedo
MD Secretária Municipal de Educação da Cidade de Goiás – GO

Para mim foi enorme a honra de contá-la como minha aluna da disciplina “Metodologia do Ensino Superior”, um dos módulos do curso de pós-graduação que a senhora faz. Honroso também para mim foi contar com a participação nas aulas de professoras  e profissionais da saúde daí de Goiás. Vocês todas são enormemente encantadoras. As Professoras Renata e Sandra do Instituto ConsciênciaGo me anteciparam que eu gostaria muito de vocês. O impacto positivo sobre meu espírito foi muito maior do que eu previra. Vocês são maravilhosas. Suas participações foi intensa, inteligente, consciente, culta, questionadora e “rebelde” (no bom sentido).

Levei  para aí imensa curiosidade pela história de Goiás ou Vila Boa. Desde que eu morava no Rio Grande do Sul me interessava em conhecer essa cidade mágica.  Logo que terminei a aula de sábado à tarde, dia 21/05 de 2011, retornei para o hotel e me joguei às ruas para me encontrar com parte dessa história do Brasil. Saí da Casa da Ponte Hotel e me dirigi às ruas centrais tombadas como patrimônio da humanidade. Meu Deus, sentei-me à praça onde muitos casamentos iniciaram e me emocionei ao olhar para as pedras assentadas nas ruas pelos escravos, para as casas e a catedral construídas por homens sob chicotadas dos proprietários e capitães do mato. Entreguei-me à imaginação que me colocou frente a frente com irmãos negros torturados e escravizados, sob condições profundamente desumanas. Vi o ódio com que eram tratados pelos capitães e proprietários. Vi suor e sangue pelas ruas e paredes de Goiás. Dei a volta e me encontrei com o Rio Vermelho. Tive a impressão de escutar nas quedas de suas águas os gemidos e lamentos dos escravos a gritar por liberdade e respeito. Demorei-me à frente da casa de uma das maiores poetizas mundiais, nossa Cora Coralina. Li a placa à entrada da casa e me emocionei com a mulher que  vendeu livros, linguiça caseira e banha de porcos  que ela mesma preparava para sobreviver e sustentar os filhos, após a morte do marido.   Com 50 anos de idade perdeu o medo, como descrevem seus biógrafos, e passou a escrever poesias inspiradas na história de Goiás, sua cidade. Tornou-se celebridade mundial, prenhe da coragem típica da mulher brasileira. 


Como se não bastasse a emoção que me dominava ao ver imaginativamente os escravos negros, o banditismo com que os escravizadores os trataram, dirigi-me à Igreja do Rosário. Com que alegria, apesar de ser 22h, que vi que o templo  encontrava-se aberto ao fim de um casamento. Entrei e deparei-me com duas coisas que me impactaram profundamente: a Via Crucis e um banner à entrada do templo. Nos vários quadros, Jesus, desde o nascimento até a assunção, é negro. Sim, Jesus na Igreja do Rosário, construída pelos escravos, é negro. Os soldados romanos que o torturavam também são negros. Ali, ante tanta demonstração da presença dos escravos, que eu tinha a sensação de ver, as lágrimas tomaram conta de meu rosto e meu peito, molhando-me totalmente a frente da camisa. Provavelmente eles se sentiram torturados nas agruras sofridas por Jesus e na sua ressurreição encontraram forças para a luta pela liberdade. Em silêncio me perguntei como numa igreja sob o arcebispado do conservador Dom Washington e como no papado do direitista Bento XVI, que beatificou o discutível Papa conservador e pró-imperialista João Paulo II, poderia se ver Jesus negro na via sacra? Mas um banner à entrada do templo me respondeu e a conversa com as professoras no domingo confirmou: a Diocese de Goiás é progressista e comprometida com a causa dos pobres. No seu território há 25 assentados agricultores, com apoio do governo federal, o maior em número de assentamentos do mundo, confirmado por  minha querida amiga e aluna, Profª Mirian de Sousa Costa Rodrigues, professora nos acampamentos, profundamente engajada na causa deles. Isto é, a Diocese  de Goiás é aquela Igreja de Deus que lembra realmente o Jesus pobre comprometido com a causa dos pobres e dos escravos, que lembra Dom Thomáz Balduíno, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Cassaldáliga, os Papas João XXIII e Paulo VI, bem diferente da igreja moralista e conservadora dos Papas João Paulo II e Bento XVI, que não  gosta do povo, mas da elite dominante e neoliberal. Essa igreja que condena a política mas que pratica a pior das políticas, que é a de se omitir ou a apoiar tacitamente as classes dominantes.

Para completar minha emoção e sensação de fidelidade à fé ideológica, prezada Professora Umbelina, no domingo pela manhã cedo, dia 22/05, antes de a senhora chegar, para exercitar Paulo Freire que recomenda que os educadores valorizem os saberes dos educandos, comecei a aula com uma poesia que construí no momento, na qual descrevia minha caminhada na noite anterior e minhas emoções interrompendo-as na Igreja dos Escravos, pedi às alunas que completassem a poesia acrescentando informações sobre os escravos e a classe dominante de Goiás. Meu Deus, foi um show. As mulheres belas e inteligentes contaram que até hoje as pessoas não valem pelos estudos, pelos esforços, pela educação etc porque a elite dominante de Goiás só valoriza os sobrenomes dos descendentes da classe exploradora do ouro e escravocrata. Tanto que criaram uma forma própria para perguntar pela origem dos sobrenomes das pessoas: perguntam “fidequem” – filho de quem - você é? Se as pessoas não possuem sobrenomes Curado, Caiado, Besquó, Alencastro, Veiga Jardim, Veiga de Almeida etc, demonstrando que o coronelismo, responsável pelos crimes contra os escravos, ainda sobrevive e domina nessa região. Na verdade, o “caidismo” – do sobrenome Caiado- chegou a ser expressão estadual e nacional, como presença daquela classe de proprietários rurais, altamente conservadora e inimiga dos direitos dos escravos e depois dos trabalhadores. Ronaldo Caiado, Deputado Federal pelo partido direitista chamado Democrtas ainda representa esse tipo de pensamento. Esse homem quando fala o faz com o ódio marcado pelo rancor contra os trabalhadores e pobres. Ele odeia a democracia e distribuição de riquezas.

Nessa mesma manhã de domingo, professora Umbelina, as professoras e profissionais da saúde, ao relatar com sabedoria a história de Goiás, olhando-a a partir dos indígenas e escravos, contaram as atrocidades a que eles eram submetidos. Uma delas, não menos cruel do que todas as outras, dá conta de que  quando eram flagrados em “acasalamentos” não autorizados pelos proprietários, eram arrastados até a um tronco ou caule de árvore tombada e  seus pênis pregados com enormes pregos, com a recomendação de que se quisessem poderiam fugir, desde que cortassem seus pênis com uma faca deixada à disposição sobre o tronco ou, no retorno dos capitães do mato, após o escravo passar um dia inteiro sob o sol causticante, eram mortos a facão ou a bala. Muitos escravos cortavam seu órgão e fugiam pelo mato, morrendo esvaídos em sangue. Outros aguardavam pela misericórdia do proprietário ou capitães do mato e eram assassinados. 

O interessante, Profª Umbelina, é que as professoras todas contaram e reatualizaram a história de Goiás a respeito  das pedras, das igrejas, das casas e até do amor, construídos sob o sacrifício, o olhar escravo e libertário dos negros.  Falaram nos tais “pés na parede”. Esses eram os filhos dos proprietários, que ainda ricos ou decadentes, vestiam-se finamente e encostavam um dos pés nas paredes das casas na praça para ver as meninas que passavam.  Pelo jeito irônico com que contaram essa história a assemelhei a esses de hoje que andam pelas ruas de Goiânia com sons desgraçada e desrespeitosamente altos, para ostentar poder e chamar a atenção das mulheres. Os pobres com seus carros velhos copiam e colocam caixas barulhentas e horrorosas em seus suas carroças velhas. Seriam esses os pés de parede de hoje? 

Nossas colegas contaram as aventuras e crimes do lendário bandido e bandeirante Anhanguera (Bartolomeu Bueno da Silva). [Anhanguera foi apelido dado pelos indígenas. Alguns autores dizem que em razão do explorador ter um olho só e outros dizem que os indígenas o apelidaram de diabo velho - significado de anhanguera - pelos banditismos de Bartolomeu Bueno da Silva].  As elites de Goiás – Estado de Goiás – o homenageiam como herói e empreendedor. Tanto que vergonhosamente ergueram um monumento em sua homenagem aqui nos cruzamentos das Avenidas Goiás e Anhanguera, as maiores desta capital. Contudo, na verdade, esse triste personagem não passa pela história se não como ladrão de ouro dos indígenas, assassino de suas culturas, estuprador e bandido. Era orgulho para ele derramar águardente à frente de indígenas, colocar fogo no álcool para impressioná-los dizendo que incendiaria seu rio sagrado e pregá-los pelas orelhas nas paredes das cenzalas se não indicassem onde se encontravam as minas de ouro . Ou de mostrar as imagens dos indígenas em espelhos mentindo que roubaria suas almas com o mesmo objetivo de assustá-los. Aliás, a profª Renata Conceição Rodrigues da Silva me convidou para retornar a Goiás e visitar sua avó, que sabe todas as histórias de sofrimento e de lutas dos indígenas e negros de Goiás. Fá-lo-ei, profª Renata, sem dúvidas, o mais breve possível.

De modo que, querida Profª Umbelina, sou profundamente agradecido ao Instituto ConsciênciaGo por me convidar a dar aulas para vocês. Saí com meu coração profundamente emocionado por encontrá-las. Como diz meu amigo José Netho, sinto-me com 25 anos de idade, por me renovar na fé e na luta. Devo muito dessas emoções a vocês. Vocês me ajudam a sonhar com um mundo e uma sociedade sem Caiados, sem Anhangueras, sem exploração, sem injustiças, sem escravidão nem desemprego nem a indignidade da fome e das violências promovidas pela classe dominante.


A senhora me impressionou muito por sua sabedoria, humildade, simpatia, beleza vocacional e de consciência. Todas as minhas alunas daí me cativaram fazendo-me amigo e familiar da família dos que lutam e sonham com um mundo novo. Que o Deus libertador do Jesus negro e libertador esteja com vocês. Muito obrigado a cada uma de vocês. Beijos.  


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