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sexta-feira

Romanismo não católico


Muito querido Pastor, Teólogo e Professor Luis Cardoso
Meu sempre querido Luizinho

Agradeço imensamente o comentário que me enviaste a propósito do que escrevi a partir do jogador Ronaldo. Para te falar a verdade, até chorei com as lembranças do que vivemos nos bons tempos em Cruz Alta. Tu, um alegre e inteligente guri e eu, um jovem pastor acossado pela ditadura. Essa divisão me torturava naquele momento: dum lado o amor das pessoas do povo e do outro o ódio da ditadura e de seus algozes e traidores.

Tuas reminiscências me jogaram de volta naqueles tempos e lugares do interior de Cruz Alta e Ibirubá, onde trabalhamos com as comunidades rurais e dos  "afogados do Passo Real", onde nasceu parte do MST de hoje. Mas o mais importante no que destacaste foram as lembranças que impregnaram teu ser e tua formação, inspirando-te a seguir os caminhos da pesquisa e do ensino da Teologia da Libertação no contexto ecumênico e popular. Que bom que nossas caminhadas te ajudaram na escolha ideológica justa para a luta.

Mas eu também guardo maravilhosas lembranças de nossas viagens de fusca pelos interiores e pelos confrontos que vivemos na cidade no embate com a ditadura. Muitas risadas damos pelas piadas que contamos juntos. Espero que continues bem humorado como o eras. Permaneci pouco tempo em Cruz Alta, como deves lembrar. De lá saí rapidamente acusado de subversão pela ditadura, que recebeu a colaboração traidora e impiedosa de pessoas de direita que mandavam na igreja, naquela cidade. Foi uma saída dolorosa, indo para Santa Maria, onde fui preso e condenado a dois anos de prisão pela famigerada “Lei de Segurança Nacional”  da ditadura. Aliás, eu, o Adelmo Genro – irmão de Tarso Genro, governador do RS – e Lula – ex-Presidente da República. e milhares de combatentes, muitos mortos e desaparecidos. Mas tudo serviu para crescimento e interpretação menos ingênua da realidade, como diz a Profª Lízia Leão.

Tuas palavras me encheram de alegria e de responsabilidade. Percebi o quanto são marcantes e até determinantes o que vivemos e ensinamos aos jovens. Sempre vivi vida de simplicidade e sem malícia com as pessoas com quem trabalhei e trabalho, até hoje. Sempre fui honesto na demarcação do em que acredito. Provavelmente por isso, volta e meia me surpreendo com manifestações de algo que ficou nas vidas das pessoas. Mas tua generosidade, aliás, ainda no comentário que me mandaste publicado aqui ao lado direito do blog, é muito significativa para mim porque nas nossas andanças minha comunhão contigo, com o José Paulo, com o Dimorvan e com outros foi sempre muito consciente e profundamente afetiva. Aprendi muito contigo e guardo toda a tua alegria e exemplo de carinho para com tua mãe, uma brava lutadora que admiro.

Creio que como pastor e professor tenhas o gostoso sabor de receber de vez em quando gestos de amizade e gratidão das pessoas com quem e a quem trabalhas. Pois é, no ano passado recebi uma carta do Dr. Antonio que se doutorou e se pós-doutorou no exterior, que me agradecia pela motivação que imprimi a ele quando lhe ensinava humildemente cultura religiosa na sexta série,  lá no Instituto União, em Uruguaiana – RS. Na semana passada, meus ex-paroquianos Renato e Zuca da Silva me ligaram lá de Nova Santa Rita, próximo a Porto Alegre – RS, para manifestar carinho e gratidão pelos tempos em que fui sacerdote deles. Aliás, eu trabalhava em sala de aula aqui na Faculdade Delta – Goiânia – Go, quando o Renato me ligou no celular, depois de me encontrar no blog e no Orkut. Não imaginas quanta alegria. Isso dá uma enorme vontade de continuar a trabalhar com o povo. Pena que há pessoas que nos sucedem com tanta incompetência, frieza e oportunismo, como é o caso da pessoa que atende a paróquia do Renato, fiel seguidora de seu issosso bispo, abandonando a família dele ao sabor das angústias e decepções.

Bueno, guri, compartilho contigo o texto abaixo do Mauro Santayana, reproduzido pelo site de Paulo Henrique Amorin, Conversa Afiada. Decepei o primeiro parágrafo,  no qual ele faz consideração teológica despojada de fundamento  e de conhecimento,  e reparto contigo  o que ele diz – concordo com ele, apesar de alguns equívocos de linguagem - sobre os comprometimentos do romanismo como igreja plantada, nascida e crescida no coração da dominação imperial. Um teólogo romano, meu amigo,  disse que essa ala do catolicismo perverte a sucessão apostólica, fazendo-a sucessão romana, no sentido de manter intacta a arrogância do Império Romano, mesmo que sua influência no mundo hoje seja quase nula.  Chama a suceessão adotada pela Igreja Romana de sucessão imperial. Esse papa aí, como o seu antecessor, o famigerado  João Paulo II, serve aos interesses do imperialismo e da direita mundial. Vede a perseguição atroz que impetraram à teologia da libertação (e não teoria da libertação, como escreve o Santayana) e o sofrimento a que jogaram muitos de seus teólogos. No meu mestrado trabalhei a filosofia e a teologia de Juan Luis Segundo. Convivi com aquele teólogo em Montividéo e testemunhei sua dor pelo o abandono e marginalização a que o Papa João Paulo II o jogou. Ele morreu em pouco tempo, graças a uma depressão que lhe causou um câncer fulminante. Vi o quanto o abandono de quem tanto ama pode matar.

Creio, Luizinho, que não se deve falar mais em Igreja Católica. Temos que dar nomes claros: o nome da igreja do Papa Bento XVI é Romana. O catolicismo verdadeiro se espalha hoje por várias igrejas, inclusive na romana. Muitas delas não têm nada a ver com a lama que jorra do atual Vaticano. Há muitos católicos honestos e cristãos dentro da Igreja Romana, que não aceitam esse papa e seu reacionarismo. Esse romanismo aí não tem nada a ver com os Papas João XXIII e Paulo VI, verdadeiros cristãos seguidores de Jesus.

Portanto, coloco aí abaixo para ti e para meus blogueiros a maior parte do texto de Santayana.

Abraços carinhosos, fraternos e com saudade.
...
“A afirmação mais grave do Papa, de acordo com o resumo de suas idéias, ontem divulgadas, é a de que política e religião são instituições separadas a partir de Cristo. A própria história do Vaticano o desmente. A Igreja Católica – e todas as outras confissões religiosas – sempre estiveram a serviço do poder político, e em sua expressão mais desprezível. Para não ir muito longe na História – ao tempo da associação entranhada entre os reis, os imperadores e o Vaticano, durante a Idade Média -, bastam os exemplos de nosso século. Os documentos existentes demonstram o apoio da Igreja a ditadores como Hitler, considerado, por Pio XII, como “um  bom católico”. Mais recentemente ainda, houve a “Santa Aliança”, conforme a denominou o jornalista norte-americano Bob Woodward, entre o antecessor de Ratzinger e o presidente Reagan, dos Estados Unidos, com o propósito definido de acabar com a União Soviética. Por acaso não se trata de uma escolha política do Vaticano a rápida canonização do fundador da Opus Dei, como santo da Igreja, e o esquecimento de grandes papas, como João 23, e de mártires da fé, como o bispo Dom Oscar Romero, de El Salvador?

A religião sempre esteve na origem  e na inspiração da política, e, em Cristo, essa identidade comum se torna ainda mais nítida. O campo da razão em que a fé e a política se encontram é o da ética. A ética é uma exigência da fé em Deus e do compromisso com a vida humana. A política, tal como a identificaram os grandes pensadores, é a prática da ética. A ética política significa a busca do bem de todos. Nessa extrema exegese do que seja a ética, como o fundamento da justiça, a boa política é a da esquerda, ou seja, da visão de igualdade de todos os homens.

Em Cristo, a fé é o instrumento da justiça. Quem quiser confirmar esse compromisso político de Cristo, basta ler os Atos dos Apóstolos, e verificar como viviam as primeiras comunidades cristãs, unidas pela absoluta fraternidade entre seus membros, enfim, uma sociedade política perfeita. Ao negar a essencial ligação entre a fé cristã e a ação política, o papa vai além de seu velho  anátema contra a Teologia da Libertação, surgida na América Latina, um serviço que ele e Wojtyla prestaram, com empenho, aos norte-americanos. Ele se soma aos que, hoje, ao separar a política da ética da justiça, decretam o fim da esquerda.

Esse discurso – o de que não há mais direita, nem esquerda – vem sendo repetido no Brasil. Esquerda e direita, ainda que a denominação venha da França revolucionária de 1789, sempre existiram. Na Palestina, no tempo de Jesus, a esquerda estava nos pescadores e pecadores que o seguiam, e a direita nos “fariseus hipócritas”, que, no Sinédrio, e a serviço dos romanos, o condenaram à morte.

O papa acredita que a Igreja sobreviverá à crise que está vivendo. Isso é possível se ela renunciar a toda sua história, a partir de Constantino, e retornar ao Cristo que andava no meio do povo,  perdoava a adúltera, e chicoteava os mercadores do templo. O  Cristo que ressuscitou  dos mortos está ao lado  dos que vêem a fé como a realização da justiça e da igualdade, aqui e agora.”

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