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sexta-feira

Tragédias ou irresponsabilidade da elite dominante?



Querido irmão e companheiro Alex Prado

Recebi tua mensagem referente ao luto que sentes com o que acontece em teu estado, o Rio de Janeiro, mas também em São Paulo, em Minas Gerais, no Piuaí etc. Também participo desse luto e dessa profunda dor ao ver nosso povo trabalhador sofrer tanto e imerecidamente. Que vontade de Deus, que sinais do fim do mundo nada, como maldosa e insensivelmente proclamam os apocalipticistas, pô!

Penso que muita gente que assiste essas tragédias pelas TVs no mundo todo até se comove e pensa enviar esmolas para amenizar o sofrimento em face de tantas perdas. Mas quem não tem consciência e experiência com esses fatos não chega a compreender em profundidade o que acontece.  Fui vítima de enchentes em minha infância, meu irmão. Algumas vezes acordávamos com nossas camas boiando na água invasora de nossa casa. A prefeitura da cidade de Alegrete – RS alojava-nos em barracas, galpões, escolas, salões paroquiais. O exército nos alimentava com comida quente e abundante, até que as águas baixassem e nos permitissem voltar para o que sobrava de nossos poucos bens. Isso acontecia uma ou duas vezes por ano. Quando criança eu pensava que Deus queria que isso acontecesse mandando muita chuva para inundar o rio Ibirapuitã.  Muita gente pensava assim. Meu pai era agricultor e muito trabalhador. Ao sonhar com a cidade para oportunizar estudos aos filhos comprou um terreno com muita alegria. Não sabia que aquilo era parte de uma área verde e pública, à margem do rio, que não poderia ser comercializada. Fizemos uma casa de madeira linda, confortável e nela entramos felizes num verão, até sermos surpreendidos pelas chuvas e enchentes otonais. Bah, foi só sofrimento e decepção. Nossos sonhos quase se afogaram nas enchentes. Meu pai adoeceu e morreu cardíaco de tanto sofrimento. Mas minha mãe morreu antes, com 38 anos, abatida pelo desgosto e pelo câncer do colo do útero. Comecei a trabalhar com 7 anos de idade e nunca mais parei. Dos meus braços saíram os estudos, do meu coração nasceu a fé, da minha consciência brotou a compreensão das causas dos problemas sociais e da necessidade da luta para transformar a realidade injusta, imposta pelo capitalismo. Mas meu marcante sofrimento não se compara ao de milhões de irmãos/ãs brasileiros/as hoje, atingidos pelas avalanches de água, lama, pedras e de mato.

Nessa triste conjuntura se evola de nossa consciência uma perturbadora pergunta: quem é responsável pela situação sofrida de nosso bondoso povo? A resposta é clara. A responsável, e há alguém responsável por isso, é a nossa histórica e desumana elite brasileira. Desde o império, passando pelas várias repúblicas, essa elite ocupa o Estado, seja por falsas eleições ou por golpes, para tratar de seus medíocres e egoístas interesses. Em poucas quadras históricas governos agiram com interesse nacional e popular, como no caso da fase democrática de Getúlio, de Juscelino, de Jango e de Lula. No demais tempo da história brasileira a elite dominante sempre gestou os negócios do Estado a seu favor e contra a classe dominada, primeiro dos escravos, depois dos trabalhadores rurais, chegando aos trabalhadores da construção civil e da indústria. Todos tratados à míngua e cruelmente em termos de salários, habitação, saúde, educação, saneamento, segurança etc. Assim como meus pais foram enganados ao comprar um pedaço de terra pública, obtendo um recibo frio, milhões de brasileiros foram empurrados impiedosamente para cima dos morros e encostas ribeirinhas para morar mal, sem segurança e apoio do Estado, completamente ausente do povo, porque envolvido com a concentração de poder e riqueza dos egoístas ricos. 

Há necessidade de reformas, que o governo Lula não enfrentou com profundidade. Os movimentos sociais têm que retomar as ruas e as pressões por reforma agrária. Os campos brasileiros têm que ser distribuídos com infraestrutura e financiamento para nosso povo trabalhador e não empobrecê-lo nas encostas das metrópolis sob todos os riscos e injustiças. O trabalho, a vida e as profissões rurais têm que ser motivo de orgulho nacional e não de vergonha, como nossa burguesia nos fez pensar. Há que se efetuar a reforma urbana urgentemente. Nossa insensível elite fez das terras urbanas meio de especulação e enriquecimento imobiliário, encarecendo a construção civil e assaltando os melhores e mais belos locais dos nossos espaços citadinos. Isso é evidentemente injusto, iníquo e perverso. Não é aceitável que uma minoria ocupe espaços nababescos e poéticos enquanto a maioria que produz riquezas seja atormentada por tantas desgraças e pelo inferno.      

Além dos movimentos sociais – MST, CONAM, CENTRAIS SINDICAIS,  CPT, MOVIMENTOS ETC – o governo Dilma, o Congresso Nacional e o Judiciário têm que ter coragem e senso de justiça para realizar reformas. Falei em reformas e não em revolução, ainda. É do interesse de todos que empreendamos as reformas agrária, urbana, política, educacional, da saúde, das comunicações, financeira (esqueci de alguma?). As perdas em vidas humanas e de bens excitam a energia revolucionária dos/as brasileiros/as. É preciso agir. É verdade que as instituições e autoridades do Estado não tomarão iniciativa sem a energia que emerge da mobilização social e popular. É hora de ocupação das ruas, das terras,das Câmaras de Vereadores, das Prefeituras, das Assembléias Legislativas, dos Governos Estaduais, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto,  das mansões e de todos os espaços para as negociações. Radicalismo? Nada. Só pensa que mobilização e luta por mudanças são coisas de radicais os alienados, os egoístas e insensíveis, todos de “bunda” para cima – como a avestruz com a cabeça num buraco - a serviço da pecaminosa e diabólica elite dominante, sempre pronta a mentir, a caluniar, a trair e a vender nossos bens nacionais, como aconteceu recentemente nas vigências da ditadura militar e no neoliberalismo do FHC.

Creio que aceitas essas ponderações, meu irmão Alex. Admiro-te no exercício solidário e libertador da fé cristã. És um católico maravilhoso dos tempos dos Papas João XXIII, Paulo VI, de Puebla e da CNBB, do ecumenismo (que saudade). Graças a Deus que existem cristãos como tu em muitas igrejas e seres humanos ateus generosos e lutadores em muitas organizações que lutam com o povo.  É isso que precisamos fazer. 

Choremos pelas vítimas não da natureza, mas dessa elite desumana brasileira, mas vamos à luta.

Abraços, meu mano!


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