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sexta-feira

O OUTRO É MESMO O INFERNO?

Prof. Orvandil Moreira Barbosa*

O tema outro - próximo - é amplamente discutido em filosofia, antropologia e em teologia, principalmente. Mas a impressão que o cotidiano nos oferece é de que não sabemos o que é o outro ou quem é o outro. As macro-relações sócio-políticas amargam grandes desastres na lida com o outro. Assim é nas relações de produção no conflito capital-trabalho. Exemplos se multiplicam na intimidade das famílias também, onde o campo relacional é marcado por acordos e contratos sigilosos, e quando explodem demonstram chagas imensas e sofridas. O trânsito hoje é um dos lugares de manifestação de gigantescos desrespeitos ao outro, também.

Sartre disse que o inferno é o outro. Será? Na história da opressão praticada pelas colônias, que exploraram pessoas, territórios e riquezas, o senhor dominador deve ter se constituído em inferno para os dominados, com sua brutal força desproporcional usada para massacrar indígenas, negros, mulheres, escravos etc. Impôs suas línguas, suas religiões, sua visão de mundo, sua educação, suas políticas etc aos dominados, desconstituindo-os como culturas e pessoas outras. As conseqüências humanas estão aí. Ainda hoje países imperialistas, como os Estados Unidos, como pior exemplo, impõem sua barbárie ao mundo, desrespeitando os povos chamados periféricos.

Tal estruturação de “desoutrização” nos impõe imensos sacrifícios para nos entendermos como outros que se relacionam. Em face de tal nível de desagregação se percebe que a grande maioria da sociedade é levada de roldão nos maus tratos do outro no outro e do outro em cada um. Parece claro que há dois níveis de massacre do outro: um é esse herdado da escravização e da colonização praticada pelos países centrais e o outro é o da relação imediata, direta na inter-subjetividade. O que fazer para libertar personalidades massacradoras do outro e para proteger as vítimas do desrespeito inter-relacional? O que pode fazer o Estado Policial e Jurídico nacional e internacionalmente para nos proteger? Quando e como contar com a polícia e com a justiça?
No campo político os povos se libertam de seus algozes com o processo revolucionário do desenvolvimento econômico e social, na luta por atender os direitos humanos e na construção de mecanismos objetivos duradouros e progressivos na satisfação de necessidades básicas e profundas. Mas, nas relações micro-sociais, o que fazer? Para que se entenda essa reflexão exemplifico com alguns casos:
1. no interior de Goiás uma mulher e um homem se apaixonaram. Graças ao seu indiscutível amor se casaram e ela se mudou com ele para outra cidade menor, já que ele era gerente de um banco, lá. Talentosa, ela montou uma escola de danças. Numa certa tarde recebeu ligação telefônica de uma mulher que se declarou apaixonada por seu marido e que faria de tudo para destruí-la para ficar com seu cônjuge. Quando aquela chegou à sua casa encontrou a polícia com um mandado judicial de busca e apreensão por abusos sexuais em crianças que freqüentavam sua escola de danças. Sem nada averiguar, a polícia a trancafiou com 23 detentos que fizeram de tudo com ela, levando-a a total desconstrução como mulher. Crianças, que foram pagas para mentir contra ela, mais tarde, movidas de pena pela exposição da professora pela mídia nacional, procuraram o juiz e confessaram a verdade dizendo que os abusos por parte da professora nunca aconteceram. A pobre mulher permaneceu presa por um mês, sendo liberada sem nada pesar contra ela. E as conseqüências emocionais que a ferem desde o acontecido, quem as cura? Quem pagará pelos danos sofridos e causados por quem não sabe nada sobre o outro nem o respeita?
2. Um bispo, movido de amor pelo próximo e pela missão de justiça do Reino de Deus, deixou a cidade onde morava e foi em busca de uma pessoa que lhe fora apresentada por amigos dela e com aquele cidadão pensou grande projeto de missão e evangelização humanizadora, que ajudaria muitas pessoas. O cidadão revelara vocação e interesse pelo sacerdócio. O bispo acreditou nas suas boas intenções. Mas a surpresa mostrou outra realidade: deparou-se com nível inacreditável de maldade e destrutividade assassina do cidadão. Este se propôs a acolher o bispo em sua casa para ajudar a construir o processo rico da ordenação. Nem bem o bispo chegou e passou a sofrer maus tratos por parte do cidadão, com fortes traços psicopáticos, até atingir o ponto de ser ameaçado de morte e de sofrer calúnias que o prejudicaram profundamente na saúde e na reputação. O “vocacionado” postou calúnias na internet, com repercussão internacional. Como isso não bastasse, mesmo que o bispo se mudasse para estado e cidade distantes, ele continuou a caluniar através de telefonemas anônimos para residência do prelado e a outras pessoas de suas relações. Colocou amigos contra o homem que bondosamente compartilharia o sacerdócio com ele. Como tratar de uma patologia tão diabólica quanto essa, de conseqüências tão danosas? Como proteger a vítima de ações psicopatas destrutivas assim?
3. Uma psicóloga brasileira, dedicada ao próximo, de generosidade humana engajadíssima, foi invadida por um português, que adentrou seu MSN e seu Orkut com termos absolutamente desrespeitosos, que a fizeram viver sensações de estupro e que a rebaixaram à condição de pior prostituta. O dito lusitano é professor universitário e ainda se esforçou por intrigá-la com seu marido e a destruir sua relação matrimonial. O machista prometeu que virá ao Brasil para matar seu companheiro. Como lidar com uma coisa dessas? Como libertar uma pessoa dessas do desrespeito ao outro e como curar as feridas que ficam numa mulher e numa relação desrespeitadas?
São apenas alguns exemplos, entre milhões, que inquietam quanto a questão de como nos relacionarmos com o outro, principalmente, quando o outro não sabe os limites entre um eu e o outro.
Sou religioso, não do tipo convencional, como os que me conhecem sabem, e me pergunto como a religião pode oferecer recursos humanos para lidar com a contradição identificada nos conflitos relacionais com o outro. Penso que do ponto de vista das massas os religiosos devem se somar aos movimentos sociais na luta pela libertação da opressão, em cujo sistema um é senhor e o outro é escravo. Mas a grande questão é como enfrentar o problema da falta de respeito nas relações mais íntimas, onde o Estado se faz incompetente. Se entendêssemos o mandamento de Jesus de “amar o próximo como a si mesmo” seria mais fácil. Mas o cruel é quando um lado se move por esse princípio mas o outro não. No caso da moça prejudicada pela mulher que a maltratou por se interessar por seu marido, resta a mágoa e o desejo de vingança. No caso do português ficou apenas a torcida para que o tempo apague o prejuízo, mas a quantas mulheres ele continuará a ofender e a desrespeitar? No fato do bispo sobra o prejuízo dos arranhões de sua reputação e perda de projetos importantes. Quem livrará outro bispo de ser enganado e ferido pelo psicopata?
Certamente uma sociedade mais justa socialmente ajudará muito a resolver esses conflitos. Até lá nossa luta e nossa religiosidade deve organizar ações libertadoras e curadoras do mal da “infernização” do outro. Há igrejas e religiões que realizam belos trabalhos educativos de jovens e adultos para o relacionamento. Há ONGs e projetos educativos que agem no sentido de enriquecer o poder relacional das pessoas, com excelentes resultados. Eu mesmo, uma psicóloga e um físico – com doutorado em física quântica – organizamos um lindo projeto de educação para o relacionamento. A grande maioria das pessoas é educável para o relacionamento com o outro. O que chama a atenção são esses casos graves de psicopatias ou demonizações de pessoas que não têm capacidade de amar e respeitar o outro.

*Dom Orvandil: Bispo Cabano, Farrapo e Quilombola.

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