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terça-feira

Estudantes usados pela direita e pelos EUA para golpear a Venezuela

Oposição e EUA usam estudantes para derrubar chavismo, diz cineasta que filmou protestos de 2007

 

Jornalista espanhol David Segarra afirma que jovens são usados em estratégia de desestabilização de longo prazo.
 
A atual onda de manifestações na Venezuela começou em fevereiro, com um protesto estudantil contra denúncias de violência sexual em uma universidade de San Cristóbal, capital do Estado de Táchira, na fronteira com a Colômbia. Ali, as manifestações ganharam força, assim como os episódios de violência. A casa do governador do Estado – o chavista José Gregório Vielma Mora – chegou a ser atacada.

Efe (15/02/2013)

Três dias após a morte de três pessoas em marcha opositora em Caracas, estudantes continuaram indo às ruas contra Maduro

Pouco antes, em 25 de janeiro, a cúpula opositora reunida em torno da MUD (Mesa de Unidade Democrática) havia anunciado um novo plano de ação contra o presidente Nicolás Maduro, chamado “A Saída”, que sugeria uma “mudança de governo”. Para dirigentes opositores como Maria Corina Machado, Antonio Ledezma e Leopoldo López, somente a desobediência civil salvaria a Venezuela dos problemas enfrentados atualmente no país, como a violência, a escassez de alimentos e a inflação.

A data escolhida para uma grande manifestação foi 12 de fevereiro, quando a Venezuela celebra o Dia da Juventude. Como não poderia ser diferente, a comissão de frente dessa mobilização foram os estudantes opositores, reunidos em torno de grupos como o JAVU (Juventude Ativa Venezuela Unida).
Reprodução/Facebook

O grupo estudantil venezuelano JAVU tem como símbolo o punho fechado, assim como o movimento sérvio Otpor

Naquela tarde, após parte da marcha opositora se dirigir à sede do Ministério Público venezuelano, no centro de Caracas, um distúrbio entre os manifestantes e a polícia começou. A noite terminou com um saldo de três mortos (pelo menos um chavista) e mais de 60 feridos. Em seguida, uma onda de protestos contra o governo pipocou pelo país, produzindo as cenas de destruição e violência noticiadas por veículos de comunicação de todo o mundo,  que geraram comoção mundial.

Hoje, o protagonismo estudantil nas demonstrações perdeu a força, dando lugar a um intenso embate entre o bloco opositor e o governo de Maduro, que acusa esses estudantes de serem parte de um plano maior de desestabilização da Venezuela, com tentáculos em Washington e alimentado pela mídia corporativa nacional e internacional.

Para o jornalista espanhol David Segarra, que viveu por sete anos na Venezuela e produziu diversos documentários em parceria com a rede multiestatal TeleSur, a teoria do governo está correta. Segarra, que filmou as manifestações estudantis contra o governo do presidente Hugo Chávez em 2007, afirma que ambos os momentos são praticamente idênticos e fazem parte de uma estratégia de desestabilização de longo prazo.

“A oposição venezuelana e o governo dos Estados Unidos viram que a estratégia do golpe de Estado, hoje em dia na América Latina, e concretamente na Venezuela, é inviável. Isso foi tentado em 2002 e fracassaram. Já se deram conta que a luta é a longo prazo, com paciência”, diz. Ele sublinha que, desde 2007, o plano de ação foi alterado, o que pode ser verificado no surgimento do novo movimento estudantil opositor no país.

Mudança de estratégia

Conforme indica Segarra em seu filme Novas Caras: o mesmo objetivo, a vitória eleitoral de Chávez em 2006 permitiu uma série de mudanças que se concretizaram na proposta de reforma constitucional, reunidas em torno de um plebiscito, referendado em dezembro de 2007. O CNE (Conselho Nacional Eleitoral) declarou vencedor o “Não”. A proposta do governo foi rejeitada pelo escasso percentual inferior a 2% dos votos (49,25% pelo Sim e 50,71% pelo Não), resultado que foi aceito por Chávez.

Veja o documentário completo:

Nuevas Caras por Guarataro

É nesse contexto que surgem manifestações do movimento estudantil opositor, que fizeram intensa campanha pelo “Não”. A estratégia declarada pelos estudantes era pacífica, de desobediência civil. No entanto, a violência foi desatada em muitas das mobilizações, como se pode ver nas imagens de Novas Caras.

Em entrevista ao jornalista, Naty Vázquez, do movimento estudantil dos anos 80, conta que a atuação da polícia naquele momento era bastante diferente da presenciada por ela quando jovem. O documentário mostra cenas de helicópteros que disparavam balas de verdade contra estudantes da UCV (Universidade Central da Venezuela) nos anos 80. “Há uma ampla lista de estudantes que foram mortos entre os anos 70 e 90 pela polícia metropolitana”, conta Vázquez. Esse corpo policial, famoso por ser violento, foi extinto por Chávez.

Reprodução/Novas Caras
Depois, Segarra atenta que em 2007 havia a presença de símbolos que não tinham a ver com manifestações estudantis, como o da cruz céltica, que substituiu a cruz gamada, ou suástica.

[Imagens dos protestos estudantis de 2007 na Venezuela]

Ele também investigou novos símbolos, como o da mão branca – referência que depois denominou o movimento estudantil opositor como “Manos Blancas” (Mãos Brancas) e também é visto no símbolo do JAVU. Um estudante revela que a influência direta foi do movimento sérvio Otpor, hoje chamado Canvas, e que usa um punho fechado como símbolo.

Nascido em 2000, o Otpor (Resistência, em sérvio) desempenhou um dos mais importantes papeis na derrubada do presidente sérvio Slobodan Milosevic. Logo, o grupo se transformou em uma espécie de "transnacional da subversão", dando assessoria a diversos outros movimentos de jovens ao redor do mundo, como na Georgia em 2003, Rússia em 2005 e Venezuela, em 2007.
Leia reportagem da Agência Pública que fala sobre o Otpor

Ronel Gaglio, da Universidade Monteávila de Caracas, confirma no documentário que estudantes venezuelanos foram à Sérvia para receber treinamento. Além disso, afirma que ganharam apoio de setores da Igreja venezuelana e da direita norte-americana e europeia, como o PP (Partido Popular) espanhol.

Segundo Segarra, o discurso antichavista, que antes era carregado de classismo e racismo, foi substituído por um que praticamente copia a linguagem esquerdista chavista, com o intuito de atingir as camadas mais populares.  No entanto, “eles sempre falam de classe média, quando nenhum dos líderes do antichavismo é de classe média. São de classes muito altas, de famílias que vinham governando a Venezuela há séculos”, aponta.
 
“Começam então um discurso que busca gerar um novo sujeito político. E para isso é fundamental não usar líderes empresariais, corruptos, e encontram um novo filão político no uso dos estudantes das universidades de elite”, que têm mais possibilidade de “empatia com jornalistas estrangeiros, a população europeia, norte-americana e inclusive as classes médias privilegiadas das grandes cidades latino-americanas”, afirma.

Guerra suave

Internamente, o foco é na geração de histeria e pânico por meio dos veículos de comunicação e na internet, diz. Ele destaca que a recente proliferação de montagens com fotografias que foram disseminadas na web são um exemplo disso. “Se pode pensar que ninguém pode ser tão inocente para ser enganado por algo tão evidentemente falso, porém, isso é fácil de ser visto a partir da frieza da distância, por estar fora do conflito”, lembra.

A penetração das redes sociais na Venezuela é expressiva, sendo que 80% dos usuários de internet possuem uma conta no Facebook. Além disso, o Twitter se tornou ao longo dos anos em uma das principais plataformas de disputa política no país. São dados que não passam despercebidos pelos EUA, pontua Segarra.

Reprodução/Twitter

Uma das montagens disseminadas na web logo após o início dos protestos estudantis na Venezuela. Foto era da Bulgária

De acordo com o documentarista, se trata de uma estratégia usada em dezenas de países do Leste Europeu, Ásia e América Latina, com combustível financeiro e intelectual norte-americano. “São estratégias desenhadas nos EUA por diversas instituições, como a NED (Fundação Nacional para a Democracia) e USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), organizações cuja função é apoiar politicamente, logisticamente” em diversos campos, como o da “estratégia comunicativa, midiática, de relações  públicas, além de treinar e assessorar movimentos políticos de direita ou que se oponham aos EUA”.

A partir desse know how comunicacional norte-americano, sublinha Segarra, fica evidente que as redes se tornam um veículo essencial. “Trata-se de uma estratégia muito mais sutil e inteligente e não é causalidade que esteja sendo levada a cabo pela administração de Barack Obama, porque historicamente o Partido Democrata manteve uma postura de ataque indireto, enquanto os republicanos foram muito mais frontais”, diz, ressaltando que a aposta atual é por uma guerra de longo prazo, suave, fundamentalmente de desgaste”.

Nesse contexto, estariam presentes a sabotagem econômica, geração de histeria coletiva e, ao mesmo tempo, uma pressão política traduzida nos protestos – um pacote de ações que geraria uma impressão de ingovernabilidade na Venezuela. “Nenhum desses fatores sozinhos pode derrubar um governo, mas no longo prazo o objetivo é desgastá-lo o suficiente para que o chavismo” perca as próximas eleições, “então, os EUA e as elites tradicionais recuperariam o controle do petróleo”.

Reprodução/Twitter
Um “enxame” de matrizes, com o uso inclusive de formadores de opinião influentes e até famosos – recentemente artistas internacionais como as cantoras Madonna e Cher se posicionaram em favor dos protestos na Venezuela – é ativado, diz o jornalista.

[O cantor colombiano Juanes, à direita, segura cartaz da campanha "Pray for Venezuela", contrária a Maduro]

“Esses nós estão aparentemente desconexos, parecem espontâneos, democráticos, apolíticos, mas têm um núcleo central, que é Washington”, que os usa não de uma “forma vertical, como um exército, mas horizontal, em rede”.

Não violência

Além disso, sublinha o documentarista, a estratégia vem traduzida também por um discurso de “não violência”, inspirada nos movimentos da esquerda nos anos 60, 70 e 80 na luta contra governo neoliberais. O que antes era usado contra os EUA, agora ironicamente estaria em seu favor.

Segundo Segarra, um dos centros dedicados à análise desses discursos é o Albert Einstein, do norte-americano Gene Sharp, cuja proposta é basicamente “usar as técnicas de conduta como as de Martin Luther King, ou da esquerda anticolonial, para fomentar a dominação. É algo verdadeiramente maquiavélico, sem precedentes. Por isso as pessoas se surpreendem ou se confundem com as novas caras do fascismo; que não sejam mais como [Augusto] Pinochet [ditador chileno] ou [Jorge Rafael] Videla [argentino], mas jovens modernos”.

O recrutamento desses jovens venezuelanos, como os de outras nações, destaca, é sutil, e segue métodos desenvolvidos durante a Guerra Fria. “Os EUA e, também a União Soviética em seu momento, não nos enganemos, monitoram e analisam conflitos no mundo e buscam líderes para poder dirigir e controlar as sociedades”, diz. “Não é que aparece um homem de terno cinza com uma maleta e pergunta: 'você gostaria de trabalhar para a CIA?”, mas sim algum instituto que luta pela liberdade de expressão, direitos humanos, que dão bolsas de estudo, prêmios, apoiam seu jornal e sutilmente te atraem para seu campo”.

Estudantes venezuelanos

E isso é o que teria acontecido com os estudantes venezuelanos, como explicita o contato de alguns deles com instituições norte-americanas em documentos mostrados do documentário Novas Caras. No entanto, na raiz desse movimento, contemporiza Segarra, está também a democratização do ensino na Venezuela, algo que gera descontentamento entre as camadas mais altas do país.

Segundo ele, antes da chegada de Chávez ao poder, havia menos de 500 mil estudantes universitários na Venezuela – a grande maioria das classes abastadas, que formavam menos de 20% da configuração social do país. Uma das prioridades do novo governo foi a democratização do sistema educativo, com a interrupção das privatizações e o impulso ao sistema educativo público, em todas as esferas. Hoje, já são mais de três milhões de jovens nas universidades venezuelanas, muitas delas novas.
Efe (24/02/2013)

"A Saída", movimento iniciado pela oposição venezuelana, prega uma mudança de governo. Nicolás Maduro tem mandato até 2019

Há um duplo problema para esses estudantes que antes eram privilegiados, aponta Segarra. Se por um lado veem que, quem antes “trabalhava em suas casas, que os servia na lanchonete na escola, agora está nas universidades”, por outro, a grande maioria é chavista, e defende aqueles que estão no poder e controlam as principais riquezas do país. “É uma afronta, um insulto” para eles, afirma.

Além disso, muitos nasceram no chavismo e têm a imagem “mítica” de uma Venezuela dos anos 50, 60, quando aconteceu o boom petroleiro, de uma Venezuela “saudita onde tudo estava bem, que não havia favelas, delinquência”. Segundo Segarra, pensam que “foi Chávez e os chavistas que destruíram a Venezuela”, enquanto foi a “decadência” política e social, gerada em governos como os de Carlos Andrés Pérez, que deu vida ao próprio chavismo.

De fato, destaca, a ausência de discursos mais alinhados com as demandas estudantis internacionais, como no Chile, que exigem um ensino gratuito nas universidades, evidencia as problemáticas do movimento venezuelano, que, por sua vez, se concentra em temas que de fato prejudicam a vida do cidadão comum – principalmente o mais pobre –, como a violência e a escassez de alimentos.

“É impressionante vê-los reclamando de problemas que os pobres vêm enfrentando há décadas, que te digam sem nenhum tipo de vergonha: 'Olhe como está o país, cheio de favelas, quando produzimos petróleo'. Claro que há pobreza. Como não haveria em um país que eles mesmos destruíram? Mas eles acham que essa fatia da sociedade não está capacitada para governar. Somente eles. Pensam que há duas classes de seres humanos: os de cima e os de baixo”, conclui Segarra. 

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