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quarta-feira

Depoimento emocionante da Psiquiátra Marcia Tigani

 Dra. Márcia Tigani

 
há 15 minutos próximo a São José dos Campos, São Paulo ·
ARS CURANDI
Há mais ou menos 30 anos atrás( quase 31!) eu me formava médica.Na verdade, antes mesmo de sê-lo, eu vivia a profissão através do meu pai.Meu pai, médico, psiquiatra, professor do HC USP, simpatizante de de ideias socialistas, mostrava-nos que o trabalho médico não era fonte de enriquecimento material, mas um dever que deveria ser HONRADO junto à sociedade, através do trabalho quase artesanal, compreendendo-se a origem do adoecimento mental e físico não só na genética nem só na psicologia dos doentes, mas na forma como estes doentes eram social e politicamente inseridos na sociedade, o que agravava em maior ou menor grau suas possibilidades e prognósticos.A universidade nunca me ensinou ética: isto eu aprendi em casa. Não a "ética" dos que usam desta palavra profunda para referir-se à seus interesses pessoais.A palavra ética, foi-me sendo ensinada pouco a pouco na convivência com pais honrados, trabalhadores incansáveis, que lidavam com o sofrimento físico e social das pessoas e que tinham uma visão HUMANISTA em suas práticas diárias.. Minha mãe, uma assistente social , trazia-nos noções sobre a situação social dos doentes que ela atendia no "dispensário de tuberculose", aquela época uma doença bastante frequente no Brasil:doença basicamente dos pobres! Em casa, não soubemos nunca o que era "enriquecimento " material , pois medicina, exercida como trabalho e não como EMPREENDIMENTO nem como NEGÓCIO, não gera riqueza.Mas em compensação, crescemos com um olhar muito crítico acerca da sociedade injusta em que vivíamos, que nos mostrava por um lado, a face bonita , rica, onde tudo funcionava bem mas também revelava o lado "feio", triste e injusto das DESIGUALDADES SOCIAIS, do Brasil. De fato, nunca passamos necessidades materiais nem privações emocionais na infância, tínhamos uma vida tranquila , de classe média. Com frequência éramos levados , pelo meu pai, a refletir sobre a situação politico-econômico-social da época: os ANOS DE CHUMBO da ditadura ..Falava-se na VINDA DO COMUNISMO na tv como se extraterrestres estivessem para invadir o mundo e o Brasil teria que se defender do "mal". Meu pai apenas limitava-se a dizer-nos que não era nada disto e que um golpe de Estado estaria por vir.Foi assim que tudo, do dia para a noite emudeceu.Em casa meu pai pouco falava sobre a situação política , mas algumas vezes íamos visitar na Praia Grande o famoso psiquiatra e psicanalista comunista, Osório Cesar, grande amigo de meu pai, e lá ficavam horas conversando, Osório, fumando seu cachimbo , meu pai falando sobre política e eu brincando , mas sempre atenta à conversa , tentando entender o que falavam .Eu entendia , pelo que ouvia, que havia outras maneiras de se viver no mundo, onde todos poderiam desfrutar de saúde e educação, de forma igualitária .. Porem , parecia-me tudo tão longínquo! O tempo passou e , já na Universidade, fui percebendo pouco a pouco que na verdade tudo conspirava para que fôssemos esquecendo o lado mais humano da profissão: tudo ensinado de modo destacado de uma prática social: teoria de um lado, pessoas doentes do outro e nós estudantes no meio, tentando aprender a arte de curar...A arte... Essa que não se ensina( mas tem que ser aprendida) é a única possibilidade que se nos apresenta, para superar a lógica capitalista em que vivemos, onde o doente é visto como forma de lucro para as indústrias farmacêuticas e prejuízo para as medicinas de grupo .O médico, este ser que não é, se não existir o contraponto do doente, é o artista que lapida a pedra bruta(doente) em busca do brilho( saúde). Trabalho de ourives, de artesão , de artista que domina o cinzel, as tintas, e com criatividade aliado à teoria e técnica, busca o diálogo entre o céu e a terra.Uma possibilidade perigosa esta , que transtorna muitas cabeças,fazendo-as muitas vezes deixar de lado a grandeza do artista para se ter a ilusão de SER DEUS. Neste ponto, muitas vezes nos deixamos seduzir, numa sociedade do espetáculo como a nossa, em que o PARECER SER tem muito mais importância do que SER realmente. A grande ilusão de quem , nesta sociedade detem o poder do saber, é que esse poder seja ilimitado.Contrariar esta ilusão, como vejo agora acontecer, quando da vinda dos médicos cubanos , para trabalhar em áreas consideradas de risco, sem acesso à médicos, é tremendamente doloroso.Mudar a lógica capitalista na área da saúde , focando a "MEDICINA DOS POBRES",é como deixar de se guiar pelo princípio do prazer e pela primeira vez ter que ser abraçado o princípio da realidade.Um verdadeiro parto à fórceps, que muitos profissionais , tendo que abdicar de suas convicções rígidas, inflexíveis e tradicionalistas, estão sendo obrigados a VIVENCIAR .Se medicina é ciência e arte, que a primeira não engesse a nossa liberdade de criar e que, tal como nos ensinou Hipócrates,essa arte seja , por conta de atitudes médicas mais HUMANAS E NÃO INDIVIDUALISTAS, exercida por nós todos, com boa reputação entre os homens e para sempre.

Marcia Tigani_ médica, psiquiatra, em São José dos Campos. _ 04/09/2013

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