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quinta-feira

Um lutador tombou de pé



Meu amigo Pastor Antonio Augusto de Vargas Trindade

Agradeço por me adicionares no Facebook, na Sonico e no Orkut.

Nossas histórias se entrecruzam desde os tempos em que corríamos de madrugada nas pistas de esporte do Instituto Porto Alegre. Posteriormente nos reencontramos nas lides ecumênicas em Caxias do Sul – RS. Lá aprendi a admirar tua visão de mundo e de relacionamento com os diferentes, sempre pronto a contribuir com o crescimento de todos. Bons tempos aqueles. Como pastor metodista te colocaste na linha de frente junto das lideranças mais expressivas e inteligentes dos movimentos sociais. Teu exemplo sempre me acompanhará. 

Hoje lembro de outra pessoa muito especial, certamente o é para ti, também. Cheguei do hospital onde me submeti a uma cirurgia e me deparei com a triste notícia da  morte do grande e admirável professor Dr. Elias Boaventura, ex-reitor da Universidade Metodista de Piracicaba – SP. Sou muito agradecido a ele por todo o apoio ao disponibilizar estrutura e advogado para me defender junto a Primeira Auditoria da Justiça Militar, em face de um processo espúrio que a ditadura impôs sobre mim. Enviou o Dr. Roberto Aguiar (Doutor mesmo, com tese defendida e publicada) para me assistir e competentemente me defender, embora o faça de conta do júri composto de oficiais militares capachos da ditadura, com cartas marcadas, mesmo assim me condenasse como o sabes. 

É evidente que o Dr. Elias (doutor pela UNICAMP) assim procedeu em obediência à sua consciência e ao compromisso que a Unimep empenhava em relação a luta por democracia e claramente anti-ditadura. Não foi somente a mim que ele defendeu, mas empenhou-se na defesa de Lula, também condenado pela mesma “lei de segurança nacional” e de tantos outros. Elias comprometera-se radicalmente com a democracia e com o desenvolvimento nacional. Vejo nele três pontos fortes e contraditórios com algumas questões de hoje:

1.     Um educador profundamente comprometido com a sociedade e com as transformações políticas e econômicas. Fundamentava-se no que havia de mais avançado nos documentos oficiais de sua igreja, tais Como o Plano para a Vida e Missão da Igreja no que se referia à educação e no Credo Social da Igreja Metodista do Brasil, até mesmo para pressionar as autoridades eclesiásticas a apoiar a luta do povo. Sua ação educacional transcendeu as salas de aula e os limites institucionais para centrar-se no povo e no País, a quem a educação deve servir. Acreditava que não é a educação que promove o desenvolvimento, mas  este provoca e sustenta aquela. 

Certamente o Dr. Elias ajuda muito a pensar a educação, hoje. Muitos educadores são bem intencionados, porém confusos em face do neoliberalismo que mercantiliza a educação e a faz um produto de má qualidade  a serviço do lucro, apenas. Pululam pelas universidades, faculdades e escolas discursos limitados, de práticas limitantes e autoritárias em favor de meras profissionalizações e do mercado, sem a mínima consciência social e de desenvolvimento. Creio que o próprio MEC ainda não deu o pulo do gato de uma educação que sirva aos propósitos do povo e não de uma minoria dominante e de pensamento único. As instituições da Igreja de Elias, na sua maioria, se restringem ao receituário neoliberal, num verdadeiro retrocesso em relação ao tempo em que ele foi Reitor. Imagino o quanto isso significou para ele em termos de sofrimento e dor de consciência. Elias foi profeta crítico da educação, da igreja e da sociedade. Suas manifestações orais e escritas foram muito fortes no que tange aos descaminhos da educação e sua subserviência ao mercado colonizado. Serve de exemplo a todos nós que atuamos na educação e nas lutas sociais. Vale à pena ler sua tese de doutoramento e seus escritos. Há muito que aprendermos com ele. 

2.  O Dr. Elias era ministro leigo de sua igreja no Matão, próximo a Piracicaba. Era profundo estudioso da Bíblia e responsável intérprete dos textos sagrados sem interesse pessoal ou institucional. O Jesus que seguia comprometia-se com os pobres e com sua libertação em todos os sentidos, sem curandeirismos e apelo a ofertas para enriquecer igrejas e pastores. Os projetos de sua comunidade no Matão envolviam-se com drogados, pobres, analfabetos e desempregados.  [Lê abaixo os depoimentos de pessoas libertas e curadas por suas iniciativas e constatarás a visão do profeta desembocada na prática.]
  
   Num momento histórico em que igrejas dos campos evangélico e católico, inclusive a sua, a metodista, afastaram-se de compromissos históricos ecumênicos e sociais, Elias é enorme grito de alerta. Quando muitas igrejas pregam a “prosperidade” neoliberal e medieval, sem preocupação social, a não ser oportunisticamente para somar vantagens como redes de TV, de rádio e de muito dinheiro, Elias Boaventura é gritante referência legitimamente evangélica. Nesses tempos de futilidades religiosas e de pastores, padres e bispos à cata de poderio e da acomodação, calados frente das injustiças e dos poderosos, com as marcas do conservadorismo e da direita, Boaventura profeticamente conclama a que retornemos ao bom caminho. Na onda de superficialidade e mediocridade na qual navegam essas lideranças religiosas, conduzindo multidões de rebanhos silenciosas aos braços da alienação Elias não embarcou nem nela navegou.
 
3.     Conheci pessoalmente o Dr. Elias. Estive em sua casa, em seu gabinete e em sua igreja. Vi a admiração com que professores, alunos, familiares e trabalhadores o tratavam, em resposta à relação afetiva e justa  praticada por ele. Alguns depoimentos abaixo confirmam. Os diplomas de pedagogo, mestre, doutor e teólogo não o fizeram arrogante. Pelo contrário, eram recursos que reforçavam sua compaixão libertadora. Sem dúvidas, tal conduta se opõe em muito a esnobes e pobres arrogantes que habitam as instituições de educação por aí pelo Brasil a fora. Há alguns/algumas professores/as e coordenadores/as que ocupam cargos ou estudam um pouquinho e se acham suficientemente superiores a alunos/as e trabalhadores/as, ao ponto até de rotular de fracassados aos que lutam com dificuldades até de aprendizagem. Elias confirmava o filósofo Sócrates no sentido de pensar que quanto mais se sabe mais se sabe que não se sabe. O melhor saber é o que se constrói conjuntamente, de modo coletivo e não autoritário e individualista.  

Num texto anterior aqui no blog escrevi, amigo Antonio Augusto, que resta uma minoria de metodistas da cepa, como escreveu Isaías, que se manteve fiel ao compromisso social em defesa dos Direitos Humanos. Na verdade há uma minoria de cristãos evangélicos e católicos que resistem ao conservadorismo e ao anti-ecumenismo pregado pelo Vaticano, pelas igrejas mediáticas e afortunadas. Há uma minoria cristã revolucionária que não teme colocar-se ao lado do povo, sem explorá-lo, pelo contrário, busca profeticamente reforçar as conquistas que caudalizam  a enorme onda de países que conquistam governos nacionalistas e populares. Elias Boaventura participava dessa corrente.

Obrigado Prof. Dr. Elias Boaventura. Tua voz profética não se calará.

Abraços Pastor Antonio Augusto.

Alguns depoimentos abaixo

“Ele lutou até o fim. É uma grande perda, ele era o meu companheiro, o meu amor. Como isso é difícil”, comentou a esposa do professor, Sylvana Zein.

A perda abalou familiares, amigos e a própria educação. “Meu pai era muito querido, por tudo que já fez. E, aliás, ele fez muito por muita gente. Era um grande exemplo”, reforçou Rodrigo Boaventura.
"Ele é um ícone da resistência não só dentro da Unimep, mas também no metodismo. Foi o professor Elias quem conseguiu projetar a universidade nacionalmente quando abriu suas portas para os congressos da UNE e outros eventos. Ele tinha uma ligação orgânica com os movimentos populares. E na “Janeirada” de 1985, quando uma ala mais conservadora da igreja o depôs da reitoria, a comunidade ficou toda do lado dele, até que ele voltou. O Elias era muito querido."
Eli Albuquerque – amigo do metodismo
"Meu pai sempre buscou o bem das pessoas. Para se ter uma ideia, vieram vários ex-bolsistas dele no velório para vê-lo porque ele fez diferença. A bondade é a característica dele que mais me marcou. E outra que trago e vivencio no dia a dia é a calma. Difícil nos ver bravos."
Rodrigo Boaventura – filho
"Elias e eu construímos uma amizade grande e um respeito recíproco. Ele era um grande cidadão de princípios claros, democráticos. Um intransigente militante das lutas sociais contra as injustiças, um verdadeiro cidadão. Ele me impressionou pela retidão, porque tinha uma grande capacidade de se manter fiel aos seus princípios."
Valdemar Sguissardi – professor titular aposentado da Universidade Federal de São Carlos e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unimep
"Ele me ensinou, principalmente, a ter caráter. O dia a dia com ele era um aprendizado constante. Ele me apoiava em tudo e me ajudava sempre, vou sentir muito a sua falta."
Jéssica Zein – enteada
"Ele era uma pessoa muito forte, inquieto, provocador, se incomodava quando as coisas estavam muito paradas, tanto na academia, quanto na igreja. Além de inteligente e solidário, suas posições ideológicas eram muito claras. Apesar de ter ocupado grandes cargos, nunca perdeu a humildade."
Júlio Romero Ferreira - professor aposentado do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unimep
Piracicaba perde um dos principais líderes na área educacional, não só deste século, mas do século passado porque, especialmente no século XX, ele foi um expoente do ensino superior aqui em Piracicaba e transformou a Unimep naquilo que ela é hoje.
Clóvis Pinto de Castro – reitor da Unimep
Piracicaba, a Igreja Metodista, a Unimep, enfim, todos os amigos e amigas perdem um grande líder, uma pessoa que marcou pelas suas posições firmes, em favor dos oprimidos, dos excluídos e por uma visão de educação bastante diferente dessa que convencionalmente nós temos. Então, o professor Elias Boaventura, como disse o bispo Paulo Ayres, é um profeta e todo profeta enxerga muito além do seu tempo e sempre é uma luz, um alerta e o Elias foi isso.
Almir de Souza Maia – ex-reitor da Unimep (1986 a 2002)
É muito difícil você falar quando se perde uma personalidade que não traz em si aquele caráter personalista. Muito pelo contrário, ele era um homem voltado para o bem comum e isto é muito significativo. Toda luta dele foi, principalmente, pelos desvalidos. Ele foi o homem que abriu a universidade para a população mais pobre. Ele soube colocar a serviço da população.
José Maria Teixeira – presidente do PT
Piracicaba perde um cidadão, uma pessoa que tinha uma clareza muito grande, um senso de justiça, uma capacidade de enxergar quando os valores da vida não eram respeitados. A Unimep perde talvez o seu mais brilhante, magnânimo professor que sabia viver com o contraditório, sabia viver com as diferenças e sabia lidar, portanto, também com as fragilidades, com as inquietações que as pessoas evidenciavam. A Igreja Metodista perde um dos seu profetas marginais, aquele que estava no meio do povo, distante do centro de poder, mas que sabia ler as decisões que a cúpulas da igreja fazia. Um profeta respeitador, afetivo, compromissado com os valores de igreja e que soube ler nas entrelinhas as incoerências da própria igreja e de seus documentos.
Bispo Josué Adam Lazier – coordenador de Extensão e Assuntos Comunitários da Unimep
Piracicaba ganhou muita projeção na gestão do professor Elias e se tornou grande referência. A cidade perde um líder político e educacional que deixou grandes marcas.
Benjamim Garcia de Matos – professor aposentado da Unimep
A gente perde hoje um homem que deixou muitos ensinamentos para muitos jovens. O que ele deixa sobre ética e sobre a visão de mundo prevalece para que as pessoas possam continuar; é um exemplo em quem a gente pode se espelhar e reproduzir essa mudança em busca de um mundo melhor.
Francisco Negrini Romero – professor da Unimep
O ser humano sempre tem falha e o professor Elias deixou uma lição muito grande pra gente que é o respeito às pessoas, independente das falhas. Mesmo com um grande cargo, ele era muito humilde e deixou esse ensinamento para todos nós.
Irineu Ribeiro – ex-funcionário da manutenção da Unimep Campus Centro


Marco Aurelio de Castro Ribeiro – presidente da Adunimep (Associação dos Docentes da Unimep)
"A Igreja Metodista do Matão (Jardim Tóquio) tem muito do Elias. O projeto periferia, que ele criou naquela comunidade no período em que foi reitor auxiliou mais de 130 crianças e adolescentes, inclusive a saírem das drogas. Lá  também foi local de alfabetização de adultos, enfim, a igreja era quase o  pretexto para os projetos sociais."

Trajetória
Mineiro de Coimbra, Elias Boaventura era professor da Pós-Graduação em Educação na Unimep. Graduado em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Marcelina (MG), mestre em Filosofia da Educação pela Unimep e doutor em Educação pela Unicamp, era também membro da Academia Granberyense de Letras, Artes e Ciências.
Foi reitor da Unimep entre 1978 e 1985, época marcada por grandes acontecimentos que projetaram a instituição em nível nacional como uma universidade compromissada com as questões sociais e políticas.
Em uma conjuntura de resistência ao regime ditatorial, a Unimep se afirmou como um espaço de debates e crítica, quando permitiu a realização de eventos proibidos pelo Estado, como os congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes), e estimulou a defesa do reatamento das relações Brasil e Cuba e defendeu a causa palestina
Marcas
Foi na época em que Elias Boaventura era reitor que a universidade foi palco de encontros que discutiram questões sociais, políticas e educacionais, tais como o seminário internacional de educação popular, ocorrido em 1983, e os seminários nacionais, de 1984 a 1987.
Estes espaços também foram ocupados pelos movimentos populares da região, a exemplo dos congressos dos favelados promovidos pela Associação dos Favelados de Piracicaba (Asfap) e sediados pela instituição desde 1983.
Em 1995 recebeu o título de “Dr. Honoris Causa” da Unimep e também o título de “Cidadão Piracicabano”. Enfim, participou ativamente dos diferentes momentos – de formação, caracterização, conquistas e crises – vividos pela Unimep em seus mais de 30 anos, tornando-se parte efetiva de sua história. 

Sempre se posicionou! Defendeu seus princípios durante toda a crise de 2006, quando 149 docentes foram demitidos pela internet e sem justa causa, colocando à frente as necessidades do ser humano, a importância da valorização de cada um, o respeito e cultivo às diferenças.














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