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segunda-feira

EUA: quem está por trás da ascensão do ultraconservador Tea Party


“A hora do chá.” Esta frase costumava evocar mansões inglesas, reuniões de britânicos distintos ao redor de uma mesa de chá servido em xícaras de porcelana por um mordomo seguramente chamado James. Agora não.


Por Juan Gelman*, no Página/12
Tradução: José Carlos Ruy (Portal Vermelho)

Agora surge na mente o Tea Party, o setor ultradireitista dos EUA, com um think-tank que difunde pensamentos muito antigos. Denomina-se Liberty Central (LC) e, para honrar seu nome, promove com orgulho a intolerância, o racismo, a rejeição ao aborto e aos casamentos gays.

É dirigido por Ginni Thomas, esposa do juiz Clarence Thomas, membro da Suprema Corte, e abriga 54 “agrupamentos amigos”, entre eles a ultracatólica Tradição, Família e Propriedade (TFP), uma réplica independente da TFP fundada em 1960, em São Paulo (Brasil) pelo político, jornalista e escritor Plínio Correa de Oliveira.

Plínio odiava a Revolução Francesa, o protestantismo, o catolicismo liberal, o marxismo, claro, e acreditava que a Inquisição espanhola foi a “mais bela página da história da Igreja” porque, enquanto durou, “a Igreja Católica foi expurgada de hereges”.

A TFP americana não fica atrás: em sua lista de amigos figuram Proprietários de Armas dos EUA – organização que insiste em que cada cidadão estadunidense deve ter sua metralhadora ou ao menos um revólver – Projeto de Soberania de Missouri – que propugna a insurreição armada para derrubar o governo – e 52 outros aderentes. Sempre esteve vinculada com a direita mais radical, incluindo a Fundação Internacional pela Liberdade (IFF, na sigla em inglês).

A IFF foi criada nos anos Reagan e é conhecida sobretudo pelo apoio ao regime de apartheid na África do Sul. Mas seu ativismo ocupou outras frentes. Segundo o pesquisador Richard Bartholomew, “a TFP teve um papel no golpe de estado brasileiro de 1964 e há indícios de que, no Uruguai, recebeu explosivos do agregado militar da embaixada do Brasil para atacar lugares onde os comunistas se reuniam. O diretor da revista chilena da TFP, Jaime Guzmán, se tornou um dos ideólogos do regime de Pinochet” (//barthnotes.wordpress.com, 25-2-08). A homônima argentina foi criada por Mario Amadeo e seu líder mais famoso foi Cosme Beccar Varela.

A TFP/EUA se dedica, entre outras coisas, a recrutar jovens mediante práticas curiosas como as militares da Idade Média. Em julho passado promoveu um “chamado à fidalguia cavalheiresca” em um acampamento na Louisiana. Segundo a página eletrônica do grupo, “foram ensinadas algumas técnicas novas como o uso da lança e a ARQUERIA medieval.

Os combates com espadas de UTILERÍA tiveram grande êxito, assim como as simulações de guerra no bosqaue tropical que rodeia a propriedade” (www.tfpstudentaction.org , 18-7-10). Não fica claro se estes exercícios são brutais nem se especifica o número de braços e pernas quebrados durante sua realização.

O Tea Party se apresenta como um movimento popular, mas não se conheceria seu súbito sucesso sem as fortunas do bilionário do petróleo David H. Koch ou de Rupert Murdoch, dono do extenso império midiático News Corporation, que controla o grupo de canais Fox e Sky, os jornais diários The Wall Street Journal, The Sun, Times e apoiaram a uns 150 candidatos de extrema direita na recente eleição americana.

Todos eles se opõem ao aborto, alguns até em casos de estupro. Querem sobretudo uma política mais dura em todos os planos, mais liberdade de mercado, menos impostos, diminuição dos poderes do governo e do orçamento federal. Sharron Angle, uma dessas candidatas, exigiu a extinção do Departamento de Educação (como se chama o Ministério de Educação nos EUA) e do Organismo de Proteção Ambiental.

O apoio do Tea Party aos candidatos não foi só midiático. Koch, dono de uma fortuna pessoal de US$ 3,6 bilhões e dono com seu irmão Charles do megapolio Koch Industries, com faturamento anual estimado em 100 bilhões de dólares (www.newyorker.com, 30-8-10), destinou enormes somas de dinheiro, através da fundação Americans for Prosperity, que preside, e da Freedom Works que financia, para alimentar as campanhas eleitorais dos candidatos do Tea Party. Todos estão sob a bandeira republicana e pode-se imaginar que fazem parte de uma luta interna pelo controle do partido.

O ex-juiz e pastor da igreja New Millenium de Little Rock, Wendell Griffen, definiu assim a ideologia do Tea Party: seu “patriotismo” consiste em “um ataque constante à ideia de que os EUA acolham pessoas de qualquer nacionalidade, crença e origem étnica”; seu supremacismo branco subliminar é um velho câncer do país, nunca eliminado porque em todas as épocas da história dos EUA os políticos o usaram para ganhar o apoio da maioria branca” (ethicsdaily.com, 1-11-10). As crises econômicas dão origem, às vezes, a expressões de movimentos populistas, e nem todos são de esquerda!

* Juan Gelman é poeta e jornalista argentino

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