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Rogério Cerqueira Leite: Que Deus nos livre das ONGs do bem

13 DE JANEIRO DE 2009 - 21h27
A Hefaísto (Vulcano, para os romanos), deus grego do fogo e da forja, enfim, de tudo o que se refere à energia, foi confiada a repartição entre os povos dos atributos relativos ao seu domínio. Convidou então Hélios, o Sol, para ajudá-lo na árdua tarefa. "Neste país", determina Hefaísto, "América do Norte, vamos colocar os ímpios tornados, os devastadores ciclones ("hurricanes'). Neste "soi-disant" Império do Sol Nascente, serão concentrados os terremotos e vulcões, manifestações da incontida energia nuclear contida no núcleo da Terra.

Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite*, para o Tendências e Debates da Folha de S. Paulo
À Rússia, sua Sibéria e adjacências serão conferidas a tortura do gelo perene, da neve de aluvião e suas consequências, tais como a quebra de colheitas e a fome. No Oriente, ventos e tempestades produzirão as mais devastadoras enchentes. No Pacífico, tsunamis trarão, vez por outra, funestas tragédias".

E assim foi até que chegou a vez do Brasil. "Aqui vamos colocar os mais benevolentes potenciais hídricos, terras férteis abundantes, a pujante Amazônia, generosa solaridade e regularidade de chuvas, essenciais para o cultivo da biomassa. Enfim, tudo o que for necessário para uma produção fecunda de energia renovável".

Hélios, até então conformado com as extravagâncias de Hefaísto, se revoltou. "Por que esse desequilíbrio, essa manifesta injustiça? Tudo de bom em um único país, tudo de ruim nos demais?" "Calma", replica Hefaísto. "Espera só para ver a invasão de ONGs verdolengas, obsessivas, paranoicas, que vão infestar o Brasil."

Não nos ocuparemos aqui daquelas denominadas "ONGs do mal". Dentre elas, aquelas cujo propósito único é o usufruto de benesses financeiras e materiais. São denominadas ONGs sanguessugas nos compêndios de parasitologia. Tampouco consideraremos aquelas ONGs que, sustentadas por instituições e governos estrangeiros, defendem interesses alienígenas e se mantêm insensíveis às aspirações do povo brasileiro.

Concentraremo-nos, portanto, naquelas denominadas "ONGs do bem". Vamos também incluir nesse conjunto bem intencionados defensores públicos e autoridades do setor de meio ambiente. E vamos começar pelo recente leilão de eletricidade que teve como consequência a autorização e incontornável implantação de 50 termoelétricas a combustíveis fósseis.

Argumentam esses missionários verdolengos que hidroelétricas reclamam represamento de água e que represas são prejudiciais ao meio ambiente por vários motivos. Inicialmente, porque ocupam o espaço do ambiente natural, principalmente florestas, ameaçando espécies naturais e o equilíbrio ecológico.

Ora, qualquer espécie que estiver restrita exclusivamente à região de uma futura represa hidroelétrica já está condenada à extinção devido ao espaço limitado. Por outro lado, a questão de espaço vital é ridícula, pois, se assim fosse, teríamos que secar os lagos naturais.

A maior diferença entre lagos naturais e represas é que os primeiros foram feitos pela mãe natureza (Jeová para alguns), enquanto as represas resultam da ação do homem sobre a natureza. No fundo, uma grande parcela da aversão dos chamados ambientalistas por represas é de origem religiosa.

É claro que a introdução de uma hidroelétrica, mesmo que seja ela de "fio d'água" (em que a água represada é minimizada em troca de perdas de potência e de energia), provoca mudanças no meio ambiente, que, aliás, com frequência são desejáveis, pois permitem controle de enchentes prejudiciais ao homem e ao ambiente em geral. Mas, outras vezes, podem de fato ter consequências negativas.

Todavia, os danos causados por termoelétricas são de médio e longo prazo, infinitamente maiores, devido ao aumento do efeito estufa e com consequências globais, do que o que ocorre localmente como consequência da implantação de uma hidroelétrica. Aparentemente os oponentes às hidroelétricas não percebem que a cada vitória jurídica que obtêm, uma série de termoelétricas será construída.

Outras dessas "ONGs do bem" concentram seus ataques no álcool combustível. "É preciso salvar o cerrado", dizem, "é preciso salvar a caatinga, é preciso salvar as dunas, os pântanos, o mangue, o deserto". Enfim, não se pode tocar em nada, nem nos 200 milhões de hectares de pastos. Ou seja, o Brasil é um museu intocável. Esse é o dogma divino. Não há espaço para a cana. Temos que nos conformar com os fósseis poluentes, aniquiladores. Temos que nos conformar com a miséria do brasileiro.

Os antolhos dessa obsessão, ironicamente, fazem com que vejam as árvores e ignorem a floresta. Ou seja, salvam meia dúzia de espécimes locais (não de espécies), mas comprometem a humanidade e mesmo a vida sobre a Terra. Que Deus nos livre das "ONGs do bem", que nós nos ocuparemos das "ONGs do mal".

* Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 77, físico, é professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), presidente do Conselho de Administração da ABTLuS (Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron) e membro do Conselho Editorial da Folha.

Fonte: Folha de S.Paulo (reproduzido pelo Vermelho).

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