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O tempo e o horizonte da agricultura familiar

Paul Singer compara o modo como o agronegócio empresarial e a agricultura familiar se relacionam com o tempo: para o primeiro, a relação com o tempo é medida pelos prazos de envios dos relatórios à bolsa de valores a cada três meses. Já para a agricultura familiar, o horizonte são as gerações, os filhos e os netos. Essa diferença diz muito sobe os conceitos de desenvolvimento e progresso em debate hoje.
Katarina PeixotoData: 26/06/2008
Falando sobre agricultura familiar e economia no campo brasileiro, Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária fez uma platéia de quase mil pessoas poder refletir sobre tempo, natureza humana e temporalidade das ações, na relação com o meio ambiente. O fôlego e a densidade do debate aberto pelo professor titular em macroeconomia da USP, contudo, não assustaram os participantes desta I Conferência Nacional. Nem poderiam. Com a simplicidade que lhe é característica, o professor analisou alguns dos problemas que têm contribuído para que a relação entre a humanidade e o planeta tenha tomado a forma de uma contradição manifesta. E a aparência de um destino. Um desses problemas é o modo como as atividades econômicas produtivas e lucrativas se relacionam com o tempo. Para o agronegócio empresarial que transformou a agricultura num dos braços do mercado de commodities, a relação com o tempo é medida pelos prazos de envios dos relatórios e balanços financeiros à bolsa de valores, em regra, a cada três meses. Já para a agricultura familiar, anotou Paul Singer, “o horizonte são as gerações, dos seus filhos, dos seus netos”.Um horizonte mais largo é por si só uma diferença importante? A destruição da natureza pelo homem é medida somente pelo tempo? Não, mas a qualidade das mudanças provocadas pelas atividades econômicas determinam, pelo menos ao longo dos últimos séculos, a temporalidade da vida na sociedade e, por conseguinte, da relação dos homens com a exploração, dominação e uso dos recursos da natureza. E é nessa qualidade que reside a diferença entre o potencial predatório do mercado de commodities em relação, por exemplo, à atividade econômica da agricultura familiar. Porque essa diferença evidencia que a qualidade das mudanças nos preços de commodities não depende de contrapartidas ou referências reais para se constituir, de modo que pode nunca deixar de ser uma mera arbitrariedade, não à toa chamada por Marx de fetiche. No reino da troca absoluta, nada se mede na realidade e a mudança deixa de ser categoria determinante da inteligibilidade dos fenômenos sociais. E é assim, despedindo-se da realidade, que a lógica capitalista se permite destruir recursos naturais como fosse uma conseqüência, se assim se pode dizer, natural. Em contrapartida, marcar o tempo na duração de gerações constitui uma qualidade completamente distinta de mudança na natureza, sobretudo na atual quadra histórica. Entender essa diferença, contudo, não requer compromissos com versões finalistas da história: não é o progresso versus o atraso o que explica a diferença entre a temporalidade do mercado de commodities e a temporalidade marcada nos rostos e na carne das pessoas que vivem de, com e através dos recursos naturais, como é o caso da agricultura familiar, exemplarmente.Disso se segue que não se trata de julgar a velocidade do mercado de commodities em oposição, puramente ideológica, à atividade produtiva das populações que produzem alimentos, segundo padrões sustentáveis, mas de levar o tempo a sério, como uma das características que determinam o estado das coisas no mundo, entre elas, a da atual crise de alimentos. Pode parecer evidente que a velocidade de uma colheita não é comparável à avaliação de preços numa tarde da Bolsa de Mercadorias Futuras. Então, o que é mesmo que torna essa velocidade um problema sério, inclusive quanto ao meio ambiente? Paul Singer responde a essa pergunta possível com um olhar prudente sobre a construção de modelos de sociedades, sobretudo a partir de “postulados” a respeito da natureza humana, isto é, a partir de abstrações; um olhar, vale dizer, que vê no diagnóstico das teorias neoclássicas da natureza humana um problema: se a medida do tempo não é única, quando tomada com referência às coisas que mudam e que são mudadas na natureza, faz sentido referir-se aos homens como indivíduos prontos e acabados?Com que autoridade se deduz e pretende legitimar um sistema econômico e político a partir de postulações sobre a natureza humana? Não estaria ela, a própria natureza humana, submetida ao tempo? Ou seria um conceito estático, caído no planeta recentemente, vindo sabe-se lá de onde? Para Singer, nós não apenas não conhecemos a natureza humana e não podemos pensá-la a despeito do fato de que ela está sempre mudando. Qual ou quais as contrapartidas às marchas do tempo de que se fazem as histórias, do capitalismo e das suas resistências? Qual o pressuposto metodológico que autoriza o marxismo a, desde sempre, sustentar a sua crítica à economia política em todas as suas variantes? O pressuposto é uma unidade entre pensamento e experiência, entre sujeito e objeto, entre intenção e extensão, que tornou a história e o pensamento do tempo histórico elementos centrais para o entendimento e a superação das contradições incontornáveis do capitalismo, que hoje ganham a dimensão de ameaça climática e alimentar, no planeta.É um pressuposto de que a prática ensina, à medida que a intenção organiza, e que autorizou Marx a ratificar a tese de que o conceito sem a intuição é vazio e de que a intuição sem o conceito é cega. É assim que as idéias e o exemplo de Paul Singer ganham, devidamente, força. Com a defesa de que o papel dos que pensam é observar, entender, examinar e experimentar, e não postular sociedades e homens fictícios. “Portanto”, disse enfaticamente o professor, “não temos modelo, e eu gostaria de afirmar isso com muita convicção a vocês”. Na autocrítica ao método, se assim se pode dizer, socialista, de que Singer se disse herdeiro, ele acrescenta o compromisso de tentar fazer empiricamente, segundo o velho método da tentativa e erro. Assim não se corre o risco, hoje mais evidente que nunca, de destruir, devastar e matar de fome. Assim não se perde a medida real do tempo, para se submeter ao espaço e ao poder que o delírio fetichista tem imposto às economias e estômagos do mundo, sobretudo do mundo pobre e já faminto. A medida real do tempo se faz de quê, afinal? Da vida das pessoas, de gente e do Planeta. Pode-se considerar a economia solidária como uma utopia; ou uma das iniciativas ingênuas e evasivas que caracterizaram a história da resistência moral à miséria que o avanço do capitalismo deixa como rastro. O problema dessa acusação não é tampouco só de natureza moral – ainda que também o seja -; nem é o preço que ela tem a pagar – que já está pagando; o problema dessa acusação é o destino de Baixio das Bestas, para o campo e as cidades brasileiras. Na abertura do mais vigoroso e bem dirigido filme brasileiro dos últimos anos, Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, pode-se ler uma referência que talvez esclareça esse lembrete: “O tempo vai consumir os engenhos, a usina, a mim e a você”, porque, ao contrário do delírio das variantes da economia política do século XIX, cada vez mais capengas e autoritárias, nem o mercado, nem a natureza humana são eternos. Talvez seja isso, afinal, o que a atual crise global de preços e de abastecimento deixe como evidência, empiricamente verificável: a contradição entre humanidade e planeta não é destino.

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