Como o TCM melou o aumento do IPTU em SP
Postado em 07 nov 2013
Elogiei, outro dia, a lógica do aumento do IPTU em São Paulo. Num
país em que rico não paga imposto, e ainda reclama da carga tributária e
dos maus serviços que recebe em troca da sonegação, é altamente
elogiável uma medida que cobra mais de quem tem mais dinheiro e poupa
quem tem menos.
Classifiquei como “inatacável” a lógica do aumento do IPTU.
O que não me ocorrera é como a classe média é capaz de atacar o
inatacável, dentro de sua miopia egoísta e obtusa. Também não me passara
pela cabeça como a justiça é politizada, e como ela poderia atrapalhar
uma medida tão positiva.
Vou definir, calmamente, o que é classe média, em minha acepção, para que não pairem dúvidas.
É um estado mental, e não econômico ou financeiro. Não importa o
saldo bancário, não importa a renda mensal. O ‘ típico classe média’
pode ser o milionário Rei do Camarote ou o frentista do posto da
esquina, passando pelo executivo que vê a Globonews, lê Olavo de
Carvalho e acha o Jabor um farol capaz de iluminar o Brasil. Pode ser
católico, evangélico, mormon, espírita ou ateu.
Vamos abreviar. Chamemo-lo de TCM, de típico classe média.
O TCM não gosta de pobre, é homofóbico e acha que todo esquerdista é
petralha ou comunista. Lê a Veja, onde aprende que Cuba é um inferno e
os Estados Unidos o paraíso, ouve a CBN e acha Pondé essencial.
O TCM, seja rico ou pobre ou simplesmente classe média na acepção meramente econômica, olha apenas para o próprio interesse.
E então um aumento de IPTU que não o favoreça vira uma tragédia, uma abominação, um ato de traição.
Os jornais e os sites da mídia corporativa cultivam os TCM. É só ler
as seções de comentários. E então editoriais e colunas incentivam os
TCMs em sua cruzada patética contra algo que beneficiaria a ignorada,
desprezada, maltratada periferia de São Paulo.
E a Justiça, composta por tantos juízes TCMs, faz sua parte também,
naturalmente. Tudo isso tem o poder de liquidar um imposto que ajudaria
os mais pobres. Mas que interesse tem o TCM pelo o pobre, ou por
expressões comunistas como “justiça social”?
O TCM acha que a rua é dele e de seu carro, e não dos pedestres, e não dos ônibus, e não das bicicletas.
Países adiantados socialmente como os da Escandinávia quase não têm TCMs.
Mas no Brasil, e em São Paulo particularmente, eles são muitos, e
interferem muito, e atrapalham muito a escandinavização do país com seu
reacionarismo estridente e militante.
Algum tempo atrás, depois de visitar uma favela em São Paulo, uma
escritora alemã comentou: “Se fosse na Alemanha, eu lutaria para que
pagássemos mais impostos”.
Mas o TCM brasileiro vê a favela e ali descobre um motivo a mais para defender a tese de que não se deve pagar imposto.
Por isso ele fica amortecido, e no fundo admira a Globo quando sabe
que ela deu, apenas num caso, um golpe de 1 bilhão de reais numa
sonegação.
O Brasil vai se tornar escandinavo, mais cedo ou mais tarde. Não
existe sociedade sustentável quando as desigualdades são tantas como as
nacionais.
O despertar é lento, mas inevitável.
Quando formos uma Dinamarca, vamos olhar para trás e vamos entender
que só avançamos porque os TCMs foram ficando numa quantidade menor,
menor, menor – até perderem o poder de frear as coisas boas com seu
egoísmo obtuso e barulhento.
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