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quinta-feira

O Estado, de vilão a salvador das pátrias, na revista Margem Esquerda



Lá para meados da década de 1990, não havia muitas dúvidas de que a economia ideal era a de livre-mercado, que a iniciativa privada era mais eficiente que o poder público para gerenciar produção e serviços, e que o Estado era um problema - não a solução - para o desenvolvimento. Hoje já parecem longe os dias em que uma aparência de consenso foi forjada em torno dessas ideias nos círculos acadêmicos, intelectuais, na imprensa e na gestão pública - o que quem continuou no campo crítico denominou de "pensamento único".

A crise financeira iniciada em 2008 pôs em xeque o ideário neoliberal. Não só saíram menos abalados os países que tinham optado pelo fortalecimento do Estado em vez de sua redução, principalmente na proteção social e lastro da economia - como a maioria da América Latina, desde a "virada à esquerda" de 1999 a 2003 -, como os EUA e a Europa Ocidental tiveram de lançar mão do mesmo Estado antes demonizado para frear a rolada ladeira abaixo.

Os EUA praticamente estatizaram a General Motors, para impedir sua quebra e salvar empregos, enquanto a Europa nacionalizou bancos e injetou dinheiro público na economia. O receituário do Consenso de Washington, que se dizia racional e não ideológico, foi engavetado, iniciando a reabilitação teórica e prática das políticas de intervenção do Estado.

Consequência desse processo, o retorno do Estado é o tema da maioria dos ensaios do número mais recente da revista Margem Esquerda (Boitempo Editorial, 168 p., R$ 28,00), lançado este mês. Com textos de David Harvey, Michael Löwy, Marcio Pochmann, Luiz Bernardo Pericás, Anita Simis, Mauro Iasi, Plínio de Arruda Sampaio Jr., entre outros, a 15ª edição da publicação, criada em 2003, aborda aspectos políticos, econômicos e culturais desse resgate da ideia do Estado como fator positivo do desenvolvimento.

O dossiê temático abre com a transcrição de um discurso do vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, liderança política e intelectual do continente, que é um dos condutores desse processo político, de dentro do próprio Estado. Seu foco é a transição da forma do Estado, e não sua estabilidade, ressaltando que é na crise que as lutas populares têm maior potencial de transformação.

"Não basta derrubar a máquina do Estado para mudar o Estado, porque muitas vezes o Estado é unitário, são as ideias, os preconceitos, as percepções, as ilusões, as submissões interiorizadas que reproduzem continuamente a relação do Estado nas pessoas. Cada povo é a memória sedimentada de lutas do Estado, no Estado e para o Estado", escreve García Linera.

Sobre o caso brasileiro, quem escreve é outro pensador que também participa da mudança do Estado de dentro dele. Como presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) desde 2007, o economista Marcio Pochmann assiste diretamente a formulação de políticas públicas para o desenvolvimento, cuja direção foi alterada nos últimos anos. E é exatamente do papel estatal no desenvolvimento – como, por exemplo, no PAC, que o autor cita como "resgate da infraestrutura abandonada pelo neoliberalismo" - que trata seu artigo.

O aspecto cultural fica a cargo de Anita Simis, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Araraquara (SP) e, até o mês passado, presidente da Ulepicc (União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura). Ela analisa como a convergência digital, processo rapidamente apropriado pelo capital, tem estendido o entretenimento (e, portanto, na visão de Adorno, também o trabalho) a todo os espaços e tempos, na forma do celular usado como suporte para as indústrias culturais.

Homenagens

Margem Esquerda recupera ainda um texto de 1986 do filósofo francês Nicolas Tertulian que pinça momentos da preciosa correspondência entre dois expoentes do marxismo europeu, György Lukács e Ernst Bloch.

Entre as resenhas, bem a calhar, Plínio Jr. comenta A Crise Estrutural do Capital, do húngaro István Mészáros, e Iasi trata da nova obra da historiadora Virgínia Fontes, O Brasil e o Capital-Imperialismo: teoria e história. Já Antonino Infranca repete os clichês revisionistas ao tratar do livro de Domenico Losurdo sobre Stalin (Stálin – História crítica de uma lenda negra, Revan), embora alegue justamente abordar a figura histórica e não o indivíduo.

A edição traz homenagem ao filósofo francês Georges Labica, que morreu em 2009, escrita pelo jornalista português Miguel Urbano Rodrigu es, além de lembrar o falecimento do historiador franco-polonês Moshe Lewin, em agosto.

Outro in memoriam é dedicado ao escritor português José Saramago, falecido em junho. Embora a maioria dos textos seja de teoria e análise pesada, o número 15 traz logo na abertura uma conversa mais leve, mas não menos densa, na forma da entrevista que o escritor concedeu em 1992 a Ivana Jinkings, hoje editora da Boitempo e então uma militante comunista em viagem a Lisboa.

Além da saborosa introdução em tom de memória, que relembra o périplo percorrido para conseguir um encontro com Saramago, o diálogo registra ideias ao mesmo tempo céticas e otimistas de um pensador que transformou em fábulas as utopias do século XX.

(Pedro Aguiar)

Fonte: Ópera Mundi

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